A minha ausência nos últimos dias deveu-se ao facto de ter estado a vindimar. O que se supunha ser um trabalho de um dia arrastou-se por mais dois, e com reforço de pessoal( eu, os meus dois irmãos, três amigos do meu irmão mais novo, os dois caseiros e ainda os reforços, os quatros contratados), caso contrário teria lá estado mais um dia...
Foi o primeiro ano, e tendo isso em consideração não posso dizer que tenha corrido mal. Estas primeiras vindimas viriam a marcar-me para toda a vida: com a tesoura da poda abri a cabeça do dedo o suficiente para deixar uma valente cicatriz. Foi bastante duro, pegar às sete da manhã com frio, colher os cachos e escolher as uvas, recusar as passas e as podres, percorrer todas as horas de maior calor, excepto a da uma às duas reservada ao almoço, e acabar ao ritmo do sol lá para as sete da tarde. Foram três dias a dormir cinco horas por dia e a trabalhar de sol a sol, pelo meio ainda sobraram picadas de pulgas, um escaldão enorme nos braços e cachaço e algumas ameaças concretizadas das vespas...
Que nem o Alberto Caeiro, tornámos-nos todos em trabalhadores do campo, ignorámos as notícias, não lemos o jornal nem romances, não pegamos nos livros da escola nem nos divertimos nas descontraídas saídas à noite, os nossos prazeres foram comer, dormir, mijar e cagar e por vezes alguma picardia jocosa no decorrer do trabalho... Como é possível ter um vida cheia assim tão simplesmente? O prazer de trabalhar está no trabalho. Se este for bem feito, com brio e aprumo, físico, será tão recompensador e cansativo que nos deitaremos felizes...Porque não temos tempo para pensar. Não precisamos de saber das tragédias do mundo nem dos bens materiais que nos cobiçam, e dizia o poeta: "não sei o que penso/ Nem procuro sabê-lo."
Os caseiros da vinha são um casal de Ucranianos, Slava e Svieta. Vemos o trabalho de maneira diferente, isso é certo, porque é que nos países ex-URSS vão para o trabalho a sorrir e nós, os latinos, vimos a sorrir do trabalho? Há uma teoria da qual partilho, que aponta o dedo à religião e não só. Nós temos uma cultura cristã, na qual o trabalho é um sacrifício, comeremos o pão com o suor do nosso rosto, dizemos: "Porra! Esta semana vou ter que trabalhar setenta horas! Não tenho sorte nenhuma!". Já os Ucranianos têm uma cultura ortodoxa e ainda a herança comunista: o principal é ter trabalho, o que se faz e quanto se ganha é secundário, mas não ter trabalho é uma vergonha perante a sociedade. Para além disso a ditadura comunista exigia rigor, não é permitido falhar, qualquer falha será encarada como uma traição à pátria que espera do operário apenas o melhor de si. Na religião cristã as falhas podem SEMPRE ser redimidas, o arrependimento abrirá sempre as portas do céu.
As conversas da vindima eram poucas... Medíamos a qualidade do nosso trabalho, olhando para os Ucranianos - onde é que eles estão? Ah! Estão ali, então nós estamos a trabalhar bem! - Outro miúdo dizia - Quando for pai, se algum dia um filho meu chumbar, vem trabalhar para as vindimas p'ra ver o que é bom! - Um dos contratados gracejava para a pouco afortunada mulher picada por uma vespa - Mais vale uma mão inchada, que uma enxada na mão!