sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Benaventices (III)

Já tinha feito referência ao filme AMARCORD, o título junta as palavras Amar e Recordar, fala da infância do realizador na sua terra, que como todas, tem um tontinho que ajuda a narrar a história.
Em benavente não há um tontinho, há vários, e esta descrição dos tontos de benavente, que farei em seguida, poderá ser chamada de benaventice, embora toda a terra tenha o seu tonto, porque estes tontos são específicos desta terra, quais espécies endémicas de uma dada região.
São tantos que os enunciarei à medida que forem surgindo na minha memória. Porventura o mais conhecido, o João Raso, cabelo branco aos caracóis, dentes muito tortos, e uns óculos bastante grossos, a sua tontice resulta de um qualquer atraso. Faz recados, e adora circo, ao ponto de certa vez, enquanto o circo Cardinalli passava por benavente, se ter apresentado como representante da câmara municipal e pediu que o circo ficasse mais uma noite, e o circo ficou!
O Lapin (coelho em francês) desconheço a origem do nome, hoje passeia-se pela avenida de roma, em lisboa, ora em direcção ao Júlio de Matos, ora na direcção contrária. Foi à guerra veio maluco, mandava piropos às mulheres, quando não conseguia jogar-lhes a mão.
O Lacrau, a sua tara era coxear apenas quando atravessava a passadeira...
O Luís Badeu, bisneto do primeiro Badéu tonto, assim ficou quando gaseado com gás mostarda na Primeira Guerra. Andou comigo na escola, para desespero da professora que recorria às cavacas da lenha para tentar impor-se ao Badéu.
A família setenta, primos dos Badéus logo a loucura é semelhante, o setenta mais velho perdeu para uma bomba raposa os três dedos do meio duma mão, ficaria famoso em benavente pela frase - São quatro imperiais e um panaché - enquanto gesticulava um "hang loose".
O Miguelito, foi comando na guerra colonial.
O Branquinho era esquizofrénico, era um intelectual auto-didata, também bebia absinto.
O Tonho-Caco, também é fruto da guerra, com uma grande barba tem um certo aprumo no vestir, usa colete debaixo do casaco, e por vezes lenço ao pescoço, sendo a roupa oferecida, não é de estranhar uns jeans femeninos à boca de sino com umas flores lexiviadas nas pernas! Pede cigarros a todo o mundo que depois guarda na orelha para fumar à noite.
Há muitos mais! Na minha família mais alguns! Mas o texto já vai longo, fica para outro post!

Tenham medo!

Hoje acordei e fui ver as notícias da manhã na televisão. Dizia o pivot em voz off naqueles segundos de publicidade que antecedem as notícias: "Quatro assaltos esta madrugada em Lisboa". Brilhante! Agora, um cidadão já não sai à rua incauto! A meteorologia já estamos habituados, antes de sair espreitamos o que diz o senhor ou a menina da meteorologia, e, com base na sua aposta, tantas vezes perdida, preparamos a nossa indumentária! Também vemos como está o trânsito, a bolsa, que é impingida a toda a hora mas serve apenas meia dúzia de pessoas, e agora mais recentemente o preço da gasolina... Mas eis que a televisão se reinventa, a partir de agora, numa televisão perto de si, poderá consultar o nível de criminalidade na madrugada que passou, e assim decidir: - Será suficiente levar o colete kevlar? Ou levo também a shot-gun? Não, já sei! Levo o taser, disseram na meteorologia que não ia chover, e tenho andado com uma vontade de disparar aquilo!
Mesmo com este alarme dos media, a polícia tenta sossegar-nos. Faz incursões nos bairros sociais na periferia da capital e para que não restem dúvidas quanto ao seu poder e eficácia, leva consigo os alarmados jornalistas. Estes indagam os populares num directo para a televisão, e comentam as ciganas: - até trouxeram os aviões! - enquanto apontam para o helicóptero.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Votação

Como podem ver, decidi render-me à interactividade, para que vós, meus queridos leitores, possam escolher o vosso post favorito. Escolhi desde já seis hipóteses, podem adicionar outras escolhas!

domingo, 17 de agosto de 2008

Santa Engrácia meet Santa Burocracia

Lembrei-me disto que aconteceu no outro dia, mais precisamente nos santos populares, treze de junho. Só conto agora porque porque na altura ainda não tinha blog.
Nos santos populares de Lisboa costumo ir fazer o passeio Sapadores até Santa Apolónia, furando pela multidão, bebendo e bailando por esta colina de Lisboa abaixo, tem corrido bem, se tivermos em conta que afinal se trata de uma noite de santos populares, e que acabar a noite na esquadra da polícia ou na esplanada da Graça é igualmente provável!
Este ano convidaram-me para ir para a frequesia da namorada do meu amigo Nuno (nome fictício), Santa Engrácia, e eu fui. Cheguei já um pouco tarde, às duas da manhã, porque fui ver as Marchas Populares à avenida da liberdade, só essa ida merece um post próprio. O sítio, cujo nome agora não me lembro, era um ringue da bola no átrio de uns prédios, entrava-se por uma porta que bem podia ser a duma casa qualquer, não fosse o facto de a seguir a um corredor dar até ao dito ringue. "Vou beber uma mini!" disse ao pessoal e fui até ao balcão, havia bicha, depois de esperar pedi uma cerveja e a mulher diz-me - tem que ir àquela barraquinha trocar o dinheiro por senhas! - serpenteio até a barraca, está lá um velho, já bêbedo, sozinho, a trocar dinheiro para um ringue repleto de gente, tinha fila. Fico na fila, chega a minha vez. Havia senhas, com o aspecto de selos, de cinquenta cêntimos, um e dois euros. A imperial era um euro, portanto comprei um euro de santa engrácia a um euro, sorte a minha que não havia taxa de câmbio. Possuidor de dinheiro dos nativos, voltei para o outro lado para ir buscar a imperial, não sem mais um compasso de espera. Digo - é uma cerveja! - a moça responde - já não há! E também não há de barril! Só temos sangria a copo! - respondo - Pode ser... - ela - É um euro e meio... - Só tenho um euro no vosso dinheiro! Porra#&*@! Fui ao outro bar, outra fila, não há cerveja... Que diabo! Estou farto disto!
Há um café à entrada, ainda tem cerveja!!! Corro até lá, peço a tão desejada mini, apresento a senha, vejo, parece que em câmara lenta, a mini na minha mão a ser elevada, quase que toca os meus lábios, e diz o gajo - a gente aqui só aceita dinheiro... e a mini é noventa cêntimos. NÃO!!! Peço ao gajo para me guardar a mini, volto à barraca do câmbio, adivinhem, tem fila, reavejo o meu euro (é verdade, era o meu único, o multibanco estava limpinho...) e volto para finalmente beber uma puta duma mini. Não há direito, pá! O que mais me chateia é que bem vistas as coisas estes burocratas dos comes e bebes são capazes de mandar-vir com o governo por causa da burocracia, mas eu, para beber uma cerveja nos santos, divirto-me tanto como numa manhã passada, digamos, numa repartição de finanças... A ver se o simplex passa lá em Santa Engrácia, se não, não meto lá os pés!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Somos cordeiros

Não passamos de cordeiros, e o lobo é a publicadade! Deve haver regras e ética na publicidade, ou não? Já não bastam os outdoor´s, os postais, posters, flyers, até nos urinóis há um espaço reservado à publicidade... Nos cinemas tudo é rentabilizado, então desde o início da pirataria, vale tudo! Publicidade nas pipocas, na cola, luzes projectadas, antes do filme já sabemos que temos que gramar com mais uns minutos de publicadade...
Lembro-me de alguns anúncios proibidos, um mais antigo, precisamente anunciado nos cinemas, embora não em portugal mas nos Estados Unidos, aumentava-se o ar condicionado e nas imagens iniciais aparentemente inócuas passadas a trinta e dois fotogramas por minuto, eram introduzidos fotogramas com a imagem da Coca-cola. Nós processamos as imagens a cerca de vinte e quatro fotogramas por minuto, por isso, e apesar de não vermos a imagem propriamente dita, ficava a vontade de beber Coca-cola, e, quem havia de dizer, não é que vendiam Cocal-cola à porta do cinema!!!
Hoje fui ao cinema ver o Wall-e, ao entrar na sala senti de imediato um cheiro floral muito intenso, pensei: alguém exagerou no perfume... Fiquei a acabar de ler o jornal enquanto as luzes não se apagavam, até que tal aconteceu. Fechei o jornal e passei os olhos para o ecran receptivo aos já esperados anúncios, e foi aí, estranhamente, que surgiu a explicação para aquele cheiro: A marca Dove borrifou a sala com o aroma da sua nova gama de sabonetes. Que raio! Já não estamos livres em lado algum! Um anúncio na televisão, mudo de canal; na rádio, igual; um outdoor, não ligo; um flyer dado à porta do metro, mando para o lixo; então e um aroma no cinema?! Faço apneia durante todo o filme? Respiro pela boca? Será que perdi o direito de não ver publicidade? Será que alguma vez o tive?

Quando eu era pequenino

Já vos disse noutro post que não tenho feito muito... Tenho-me lembrado das asneiras que fazia com os meus irmãos para passar o tempo, morávamos longe da vila, não tínhamos bairro nem amigos ali ao pé para brincar... Não gostávamos de jogar à bola, éramos porventura mais alternativos. Um dia vi na televisão uns gajos a fazer slide!
"Granda pinta!" - pensei eu! nunca tinha visto aquilo! Era uma loucura! A segunda coisa que pensei foi: "Eu consigo fazer isto!"
Com os meu irmãos fomos tratar de montar um slide, na minha casa antiga havia o tal pombal que falei no outro post e em frente havia um canil com umas seis boxes nas quais havíamos criado vários fox terrier's. Estava escolhido o sítio! Partiríamos do topo do pombal e vínhamos a descer até ao canil, qualquer coisa como sete metros de distância. Faltava o cabo, havia o cabo de âncora do primeiro barquito do meu pai, servia, apesar de ter alguns nós-cegos, isso não me pareceu um problema na altura...
Lá trouxe o cabo, fiz-lhe um laço e tentei, como um cowboy, laçar o pináculo no topo do telhado do pombal, não foi difícil! A seguir, amarrei a outra ponta do cabo ao canil tendo antes feito passar um troço de um cano pelo cabo, o cano serviria para eu me agarrar e deslisar até ao canil! Primeira tentativa: procurei a escada, subi ao pombal, que a meio da altura tinha um rebordo que parecia feito de propósito para eu me apoiar, pedi ao meu irmão do meio para com uma cana fazer subir o cano até lá cima, agarrei-o, e deixei-me ir! Era fantástico, tudo corria bem até que a meio do cabo, o cano ao qual eu me tinha pendurado passando o meu braço por cima, ficou preso num dos nós-cegos mas eu continuei a deslisar até ao canil... Rasguei a T-shirt e esfolei o sovaco, passei o resto da tarde com o braço direito alçado... Mas havia mais pilotos de testes! Depois de, diligenciosamente, ter desatado todos os nós, tirámos o cano (que nos pareceu perigoso) e pusemos a fateixa do barco. Desta vez iria o Zé! Subiu ao pombal, agarrou-se com as mãos e desceu continuamente até ao canil, onde eu e o meu irmão mais novo o esperávamos animados! Só até olharmos melhor para ele e vermos uma das pontas da fateixa espetada no queixo dele!!! Credo! Lá fomos a casa desinfectar a ferida que parecia pior do que realmente era!
Acabaram as tentativas de fazer slide quando a minha mãe chegou a casa, mas essa tarde foi inesquecível!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Benaventices (II)

Esta é a história do Coelho e do Pau de Marmeleiro!
Em tempos idos era costume ir à caça, mais do que hoje, hoje somos mais conscientes mais informados e repugna-nos matar bichos que não servem para comer, a nós, a maior parte dos Homens. Quem lêr o "Tintim no Congo" verá que este matou chimpazés e dezenas de gazelas, hoje impensável, moral e eticamente condenável aos olhos de qualquer europeu.
Mas ia dizendo, a caça fazia parte do dia-a-dia da população rural, qualquer homem e algumas mulheres de famílias mais ricas caçavam. Pelo menos iam à caça, trazer para casa peças de caça é outra história, daí que alguns caçadores aldrabem o proveito das suas caçadas! Diz o povo, em cada caçador um mentiroso, e talvez o diga bem!
Avante com a nossa história, ou melhor, adiante, para evitar equívocos, antigamente em tempos que já lá vão, limpavam-se os resíduos de pólvora acumulados nos canos de uma espingarda usando um pauzinho de marmeleiro como escovilhão, assim e com um pouco de óleo se mantinha uma espingarda em boas condições. Certo dia na charneca, em mais uma caçada, conversam dois caçadores. Diz o primeiro que um dia estaria a exercer essa boa prática de bem manter uma espingarda, quando passa um coelho mesmo à sua frente! A excitação foi tal, que o pobre homem chegou a espingarda ao ombro e disparou sem antes sequer ter tirado o pau de marmeleiro do cano, tendo este sido projectado, qual flecha! O coelho apesar de atingido pelo escovilhão de marmeleiro, sobreviveu e fugiu! A resposta do segundo caçador veio em seguida: "Ora porra! Então não é que ainda no outro dia vi passar um coelho com um marmeleiro às costas carregadinho de marmelos!"

L'amaro fare niente

Não tenho escrito nada... Não tenho nada para contar, que contar? Não tenho feito nada, nada me inspira. Não tenho nada para partilhar...
amaro quer dizer amargo

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Já não sou Bad Ass

Eu lembrou-me da adolescência - como me irrita a dos outros - como uma fase para fazer coisas estúpidas. No meu primeiro contacto com essa grande Associação a que um dia pertenci, o jovem a jovem, era pedido a todos que se apresentassem dizendo o primeiro nome e uma coisa que gostássemos. Chegou a minha vez: "O meu nome é Chico e gosto de me embebedar!", não deixou de ser verdade, ainda hoje gosto, mas era a aquela atitude de teenager cabrãozinho arrogante, eu era um Bad Ass!
Íamos para o Sobre Margem, o e não um bar da terra, o que é que se pedia? Um suminho? um Ginjer Ale? claro que não!!! Começávamos a noite com um T.G.V. (tequilha, gin e vodka) seguiam-se os shots: B-52's, Pastéis de Nata, Moranguitos, Dragon Ball's e acabava-se a noite com um Absinto e às vezes um Hamburger! Eu era um Bad Ass! Fumava como um cavalo, experimentava tudo: fumar antes de me levantar da cama - g'anda broa! Pequeno almoço é para meninos, eu era café e cigarros até à hora de almoço! Eu era um Bad Ass! Sair até de manhã, ir para Lisboa ver concertos e depois ir para o Bairro, voltar no dia a seguir a tempo de ir para as aulas às oito da manhã, avisaria os meus meus à hora de almoço! Eu era um Bad Ass! Outras coisas, de tal modo escabrosas, e passíveis de denunciar crimes públicos, guardarei para mim, mas ainda assim, Eu era um Bad Ass!
Não estou a ficar velho, pelo menos não mais do que na altura, mas acrescem responsabilidades ou talvez as eventuais consequências se tornem mais claras...
Shots não, dá ressacas horríveis... Um maço e meio numa noite é caro e no dia a seguir sinto que preciso de ser entubado... deixei de fumar. Ir para a faculdade às oito, ou é para estudar ou nem vale a pena lá ir...
Já não sou Bad Ass...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Amar para proteger

Eram cerca de trinta pombos domésticos, de várias cores e variedades, incluindo aqueles de cambalhota que uma vez comprámos na feira de Marinhais. Talvez fossem mais de trinta. Moravam todos no pombal que havia lá em casa, torto como a torre de Pisa, de dois andares e talvez uns quatro metros de altura. No piso de baixo tinha a bomba do furo, e em cima viviam os pombos.
Longuíssimos eram os verões em Benavente, apesar da piscina, o tédio instalava-se rapidamente lá em casa. Mesmo com os meus irmãos, havia a necessidade de matar aquele tédio horrível. Numa tarde, fui na biciclete do meu irmão, uma roda vinte polgadas, à espingardaria Safari do sr. Couto que fica por baixo da casa do meu primo (lá está aquilo de que falava no último post) e comprei uma bela fisga! Aquelas que fazia com borrachas de câmaras de ar e paus de marmeleiro em forma de Y já não me apraziam. Com este novo brinquedo, as tardes quentes de verão ganhavam de repente uma nova frescura: íamos para a entrada de saibro catar as pedras que nos parecessem melhores projécteis e depois dispararíamos sobre os inicialmente ingénuos pombos, que permitiam nos aproximassemos de tal modo que o tiro era sempre certeiro. Mas depressa aprenderiam, pela lei de Pavlov, que miúdos pequenos significava pedrada no bico, de modo que passaram a quedar-se um pouco mais longe e mais e mais. Os pombos, eram, claro está, comidos por nós! A Dalinda, nossa empregada e excelente cozinheira, depenava-os, arranjava-os para depois os comermos grelhados ou estufados com bacon e cravinho. Depressa os pombos se tornariam de tal modo esquivos que ao pousarem a tal distância, nenhuma fisga teria força suficiente para projectar um calhau tão longe. Felizmente para mim e infelizmente para os restantes pombos no verão seguinte viria a comprar uma magnífica pressão-de-ar Gamo, levíssima, no El Corte Inglés de Huelva. Este novo brinquedo brindou-me com uma regular provisão de pombos durante mais algum tempo, quando não andava a caçar pombos matava pardais ou simplesmente disparava sobre alvos de metal ou papel. Mais uma vez Pavlov veio ditar que os pombos fugissem após ouvir o primeiro disparo, ainda que surdo, da pressão-de-ar. Rapidamente encontrei outra solução: uma besta. Sem me aperceber da perigosidade daquela arma, lá fui, de emboscada, caçar pombos nas traseiras lá de casa. Deitado com a besta apoiada no meu cotovelo esquerdo disparei a minha única seta contra o mais gordo dos dois pombos pousados no telhado. Aquele contra o qual disparei levantou vôo, e o outro seguiu-se-lhe. Pensei: a seta foi parar sabe-se lá onde, e o pombo fugiu. Voltei para casa desiludido para encontrar junto à porta de casa o pombo a esbater as asas contra o chão com a seta a trespassar-lhe o tronco!
Não voltei a disparar sobre animais a seguir a ter causado um tal sofrimento a uma osga: Noutra dessas tardes enquanto estava emboscado, vi passar ao longe numa parede caiada uma osga, bicho pelo qual tenho uma grande estima, e disse para mim, sem achar que isso fosse possível - daqui desta distância vou espetar um chumbo na cabeça da osga e vou acertar - e acertei...
Esta história ilustra uma certeza que tenho, as infâncias eventualmente crueis para com os animais, o matar pássaros, pescar, fazer caça submarina, apanhar sapos, rebentar bombinhas nos formigueiros, traduzem-se em adultos com uma preocupação e respeito pelo ambiente mais apurados.

"For in the end, we will conserve only what we love. We will love only what we understand. We will understand only what we are taught."
Baba Dioum

domingo, 3 de agosto de 2008

Benaventices

Este, creio, será um título recorrente no meu blogue. Há coisas que são inequivocamente benaventeiras, e embora eu já seja mais alfacinha que benaventense, há coisas que teimam em não desaparecer: os "inhos", esse maldito sufixo que presiste em metade das palavras que me saiem da boca - "dê-me aí uma imprialzinha com uns tremocinhos". Outras há que não posso precisar se serão benaventeiras ou se simplesmente se perdem no seio da urbanidade: eu posso referir-me a alguém como "o meu conhecido, o Sr. Zé" ou "o Sr. Zé, o ex-namorado da tia da mulher do irmão da mãe do rapaz que faz recados à prima do João" isto acontece nas terras pequenas porque toda a gente se conhece, pior, somos todos primos! Porque ainda há poucos anos dez quilómetros eram uma distância enorme e as terras ficavam isoladas entre si, algo conhecido na biologia como o isolamento reprodutor.
Mas dizia eu, este título será um espaço onde tentarei expor as ternurentas histórias de Benavente e arredores, reais e inventadas como se fosse o meu AMARCORD escrito em blogue.
Nesta primeira edição vou contar-vos a história real do Homem que matou Um Cavalo com um Grito!
No não longínquo século passado, o homem que vendia gelados nas noites quentes de verão era conhecido pela marca dos gelados: "Esquimó Fresquinho". O Esquimó F´esquinho apregoava os gelados mandando um fenomenal berro: Esquimmmmmmmmóóóóóóóóóóóóóó F´esquinho! com uma grande acentuação na mó e um F´esquinho quase mudo. Ora num dia de verão, quente como sempre, nada faria supor que viesse a acontecer algo de extraordinário. Saiu o Esquimó F´esquinho à rua pra vender os gelados e ao dobrar uma esquina manda o seu inconfundível berro. Mas a seguir à esqina dobrada estava um pobre cavalo preso a um poste que se assustou com o berro e pregou um valente cabeçadão no dito poste, tendo caído seco no chão! Assim ficou conhecido o já alcunhado Esquimó F´esquinho, como O Homem que Matou um Cavalo com um Grito.

post scriptum: Outra benaventice, é o facto de as alcunhas serem herdadas de pai para filho, ainda hoje vive a família Esquimó F´esquinho!

sábado, 2 de agosto de 2008

Marineide

Marineide lê-se, obviamente, "márineidje" que quase sempre é abreviado a um singelo Neidje. Era assim chamada a personagem da grande série/peça "Sai de Baixo", a empregada pobre, mal formada e perdida de boa.
A realidade é um pouco diferente, sendo Portugal agora um país de acolhimento já todos contactámos com cidadãos brasileiros e alguns de nós talvez tenhamos a casa limpa ou a roupa passada por estes imigrantes, já que em geral, estes têm empregos que nós não queremos... Na verdade, o meu pai contratou recentemente uma brasileira e adivinhem o nome dela! Não vale a pena porque não conseguem, ela chama-se Giselaine!!! De repente, cada vez que vou a casa dos meus pais parece que entro no palco do "Sai de Baixo" ouço sempre o sotaque carioca "Seu Francisco isso, Seu Francisco aquilo..." até fico à espera que entre em cena o grande Cavalcante na pele de Ribamar Telo.
Ora no outro dia fui à terra e levei o meu cão, o meu Cão de Fila de São Miguel, o Ratzinger, e deixei-o no terraço juntamente com os cães dos meus pais, a Fajã e a Japona. Acontece que a Giselaine, que o meu agressivo Fila desconhece, veio trabalhar ás duas da tarde e encontrou o cão desconhecido que quase a mordeu! Então eu disse-lhe: "Olhe, a Fajã está saída e também o cão não a conhece a si, portanto o melhor é eu levar o cão para a varanda de cima para você poder limpar isto aqui em baixo" e assim evitava o risco do cão montar a cadela, ela perguntou o que era isso de saída e depois de eu lhe "traduzir" ela perguntou: "Oh Seu Francisco, mais o sior não qué cubri a cadela?"
Esta é a mundialmente conhecida frescura dos brasileiros! Ainda nem um mês no emprego e já está a perguntar ao patrão se não quer cubrir a cadela!!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A falta de um acessor

O nosso Presidente da Républica dirigiu-se ontem ao país numa declaração que eu vinha a aguardar desde do início do dia, não sem um certo nervosismo. A expectativa era elevada, e tinha sido criada alguma neblina à volta deste assunto a qual eu tentei abanicar com as mãos durante o dia de ontem: Seria que o nosso Presidente se iria demititir? Não, ele não criaria tal suspense... "já sei!", pensei eu, a Maria Cavaco está grávida! Mas isso também não.. ela já não vai para nova... o que seria?! Tive que esperar até ás vinte horas e pouco para ele dizer que estava preocupadíssimo com o "Estatuto dos Açores". Com os Açores?! Perdoem-me os Açores, gosto muito de vocês, mas com os Açores?! Não havia mais merda nenhuma que preocupasse o nosso presidente, não, e mais, ele achou este tema da maior importância ao ponto de justificar uma encenação destas. O que é que aconteceu ao telegrama? Não podia ter mandado um telegrama para São Bento? Ou um e-mail? Não, tinha que vir à televisão... Desde que tomou posse, apenas esta alteração ao estatuto dos Açores, que o próprio governo já tinha dito ir alterar, foi alvo de uma abordagem destas, e aqui abre-se um gravíssimo precedente: não faltarão agora os lobbies a exigir que o nosso Presidente se dirija ao país para falar sobre temas que aflijam igualmente os portugueses, digamos, referir que cor prefere no tampo da sanita, ou as ementas nos restaurantes devem passar a vir escritas em papel de vinte e cinco linhas... Assim se vê a falta que faz um acessor, é que é óbvio eles estão todos de férias, mas isso é um erro que eles próprios já devem ter lamentado, logo a seguir à intervenção do Presidente! Caros Acessores, ainda não é tarde, interrompam as vossas férias, antes que o nosso Presidente volte à televisão, se esta merda pega daqui a nada está como o Chávez ou o Fidel com um programa semanal de cinco horas para contar aquilo que o aflige no país. Deixará de haver Tribunal Constitucional: o cavaco vem à telé, lança a acha para a fogueira, o tema discute-se nos media, convida-se o Jorge Miranda e uns comentadores, e decide-se assim na praça pública se a proposta é ou não constitucional!
Enquanto não houve um candidato a primeiro-ministro credível no PSD, as relações PM/PR foram um mar de rosas (literalmente!), mas agora o nosso Presidente quis cortar com o passado e avisou o Sócrates: "A partir de agora, estás por tua conta!"