Ela nasceu em Outubro, e eu era para ter nascido no mesmo dia de Outubro, mas a verdade é que a minha preguiça empurrou-me até Dezembro... O encontro que estava marcado para a maternidade teve que ser adiado. Os conspiradores, pessoas que desde o nosso nascimento nos tentaram dar a conhecer um ao outro, voltaram-se para outra hipótese: puseram-nos a morar na mesma terra. Em Paço de Arcos, e apesar de termos sido conterrâneos por três anos nunca se deu o acaso de nos conhecermos. Os nossos desencontros começavam a irritar os conspiradores que achando que o mal era da terra, deram instruções para que fossemos mudados a fim de promover o tal encontro que lhes escapava. Um qualquer mal-entendido lá na burocracia dos conspiradores veio ditar que eu me mudasse para Benavente e ela para Évora, a empresa dificultava-se e havia mesmo já umas certas dúvidas na mente dos maquinadores da conspiração quanto à certeza de outrora. Não desistindo, e acreditando numa fé superior, os conspiradores recorrem a tudo o que fosse possível para permear o tal encontro! Mas muito mais fariam como veremos de seguida, de resto, para encurtar a distância de Évora a Benavente criaram a Associação Jovem a Jovem com núcleos regionais tanto em Évora como em Benavente e à qual tanto eu como ela, nos associámos, eu em Benavente e ela em Évora. E mesmo assim o encontro não foi certo! Num encontro dos dois núcleos que eu organizei em Benavente e tendo à minha frente uma lista de contactos que incluía o dela, a verdade é que ela não veio! Os conspiradores perderam a paciência, houve uma conversa destas entre Évora e Benavente: »Epá! 'Tou farto disto! Já passaram quinze anos! Eu já não quero saber de mais conspiração nenhuma, ouve lá, nesse tal encontro que o puto 'tá a organizar vai alguma rapariga?!» «Vai sim, vai uma alentejana jogadora da bola...» «Ai é?! Então não é tarde nem é cedo, empurramo-los para cima um do outro a ver o que é que sai dali...» E até saiu qualquer coisa, mas a verdade é que este fruto da ira dos conspiradores estava condenado à partida.
Ainda no Jovem a Jovem, fui fazer uma formação a Reguengos e foi esta a oportunidade de ouro para os conspiradores, que embora à data a tenham deixado arrolar-se por um néscio qualquer, conseguiram fazer com que ela fosse cozinheira durante o regime de internato dessa tal formação! E foi aí que nos conhecemos finalmente!
(Breve nota histórica)
Foi da necessidade de promover o melhor conhecimento um do outro, que em finais dos anos noventa os conspiradores usaram todo o seu conhecimento técnico para desenvolver uma ferramenta que permitisse a comunicação entre pessoas à distância sem custos elevados. Os conspiradores desenvolveram o famosíssimo "msn messenger"! Pois é! Foi por nossa causa que inventaram o messenger!
A nossa aproximação foi tudo aquilo com que os conspiradores haviam sonhado há já quinze anos, mas de facto, o messenger não foi suficiente para manter-nos juntos e o afastamento permitiu de parte a parte que outros se aproximassem. Ainda durante esse período houve acasos misteriosos, como quando mudados para Lisboa, de todas as ruas fomos parar à mesma Rua Barão Sabrosa, e apesar dos acasos, tudo indicava que o papel dos conspiradores tinha sido inglório, mas eis que um esforço maior devolve a singularidade aos dois no espaço de uma semana! Os conspiradores, em geral já incrédulos do casal prostrados a uma canto a pensar onde teriam errado, erguiam agora as sobrancelhas e magicavam mais e melhores maneiras de nos aproximar novamente. Mas tal não aconteceria tão depressa, ou pelo menos assim eu pensava, porque de facto já estava a acontecer! Eu em mim mesmo encerro encantos que só o são perante ela assim como o contrário também acontece! Aqui devo abrir um pequeno parêntesis a que irei chamar "O Caso de Estudo", ora leiam:
Bem, ainda não disse mas sendo ela enfermeira e eu um acidentado nato, a atracção mútua parece inevitável, e eu, em conversas que se desenrolavam, acabava por desvendar sempre mais um episódio clínico que me tivesse acontecido. Resumido numa única conversa seria algo assim:
- Sabes que eu tive um Apgar 5! - digo eu meio orgulhoso!
- 5?! Que cena! Como é que é possível? Por isso é que tu és assim!
- Ah foi porque nasci com o cordão umbilical enrolado à volta do pescoço, estava cianótico e tudo!
- Ena pá! - admirou ela perante a minha voz cada vez mais melosa;
- Depois tive rubéola duas vezes!
- Ora! Isso é impossível!
- Mas tive mesmo! Não ganhei imunidade da primeira vez por isso apanhei duas vezes! - e ela cada vez mais encantada!
- Mas há mais! Logo passado uns meses descobriram-me uma cardiopatia congénita!
- Tens um sopro no coração!?
- Tenho, mas é um soprinho muito pequenino, não interessa a ninguém, já a cardiopatia fez o médico chamar todos os internos quando fui fazer a eco! - eu tenho esta capacidade de encantar tudo o que é pessoal médico...
- Depois disso foi mais trauma: parti a cabeça, a mão, fiz uma loxação nas duas rótulas, desloquei a clavícula, parti o nariz, fiz rupturas musculares, entorses, etc... - e à medida que eu ia dizendo isto ela acompanhava com ahh! e ohh! como quem vê um fogo de artifício!
- E essa cicatriz que tens no pescoço?
- Isto era um tumor que estava aqui embrenhado no plexo braquial, mas graças a Deus e ao histopatologista que o analisou veio revelar-se benigno!
Por último foi o dia em que era para ir beber café contigo numa tarde de sábado mas esbarrei contra uma acácia na noite anterior, fiz os golpes no joelho, no queixo, e a amputação do dedo...
E aqui é tudo aconteceu! É que para quem olha para feridas como eu olho para esparguete à carbonara, um politraumatizado é um docinho caído do céu! Entre mudas de pensos e arrancar de pontos os conspiradores que em tempos eram tão poucos, começaram a reunir conjectores mesmo no meio dos nossos amigos... Mas nada existia de facto e quando chegou o Verão (altura do ano aparentemente propícia) e nada aconteceu, os conspiradores reagiram num acto de fúria: "BASTA! Mandem-nos sozinhos para uma ilha!!" E fomos os dois para os Açores! E aí sim!
Parecia ser óbvio já para tantos, que aparentemente nós fomos mesmo os últimos a perceber! A conspiração havia de confirmar-se dez anos após aquele em que a conheci, e volvidos vinte e quatro sobre o início da conspiração, os conspiradores de então, puderam então descansar!
Há 16 anos