Era já próximo da passagem de ano. O Alexandre pôs na cabeça que havia de se embiscoirar (verbo empregue no dialecto scalabitano, donde o Alexandre é nativo) com uma mulher ainda antes das últimas badaladas do ano! As possibilidades eram fracas: mulheres que ele conhecia já o conheciam a ele desde há anos, perdia-se assim aquele encanto, tantas vezes enganador, de trocas de olhos fugazes, aquela faísca que o Alexandre procurava «deixem lá isso de relações sérias, pá! Eu só me quero enrolar com alguém antes que acabe o ano!» confessava ele à sua amissíssima Jubera. Esta, perguntava-lhe a modos que perscrutando uma solução para o amigo aflito «Ouve cá, vai na volta estás a ter uma abordagem que não propicia esses tipos de contactos...» «Jubera, te digo que a minha abordagem é infalível!!!» O Alexandre era rapaz de um entusiasmo invejável, cabelo aos caracolinhos, maneiras de um miúdo de doze anos encerradas no corpo de vinte e dois, um pintas de olho esperto e movimentos rápidos, skater de meia-leca, continha, apesar de tudo, um charme raro capaz de agradar ao género de moças que se deixa agradar por isto! «Jubera, ouve-me esta: Chego de sorriso, encosto-me mansinho e digo-lhe ao ouvido baixinho "Alex e durex, 'bora?!"» «Por amor de deus Alexandre estás-me a gozar, esperas que eu acredite que alguém cai nessa? Isso até parece o slogan do restaurador olex» «Até agora, houve uma sardenta com pinta que me pediu para repetir a frase... mas isso não interessa, não vou mudar de estratégia...» Jubera rapidamente esqueceu os delírios do Alexandre, e deixou-se andar sem o ver ainda durante uns tempos bons, ela que tinha a tão desagradável mania de alcovitar o Alexandre com todas as suas amigas, roladas noutros círculos e perfeitamente desajustadas da fibra gingona de Alexandre. Não voltou a ver o Alexandre antes da passagem de ano. Na verdade, desencontros sucessivos ditaram o reencontro dos amigos já a acabar a primavera. «Jubera! Bons olhos te vejam! Nem sonhas como ando aflito, já nem eu próprio acredito! Estava capaz de escalar prédios, ando à míngua desde Abril, vê lá tu bem!» como Jubera o compreende, também ela assaz carente de um calor mais humano que o do gato «Tu também?! Credo, mesmo assim estás melhor que eu, que tive um conforto já longínquo aí numa tarde invernosa de Fevereiro...» Alexandre indigna-se com o lamento «FEVEREIRO?! MAS DE QUE ANO?!» Jubera tinha subestimado a angústia do seu amigo, é que a míngua a que ele se referia já vinha do ano passado! «Maior crueldade passou-se Março passado, levaram-me a uma lan-party em Alcabideche, e lá conheci uma daquelas tipas que se vestem à lolita japonesa, mas uma gaja já com idade para ter juízo!» «Que é isso de lolita japonesa?!» pergunta a Jubera de cara enrugada «Pá, são tipas que a cena delas é vestirem-se de criança mas com roupas provocantes como fazem lá muito no Japão. Bom, com juízo ou não, havia já muito a perder e achei por bem guardar aquela frase que já conheces para um momento mais próprio, por isso convidei-a para beber um red bull e depois pedi-lhe o número de telemóvel!» «Estás a ver Alexandre, aí já soubeste adequar a abordagem!» «Espera! É que acontece que nós estávamos a ligar e eu quebro-lhe mesmo a minha rotina em cima, e a frase pega mesmo!! Eu nem queria acreditar! Só havia um problema: o Alex estava sem durex!» «Oh Alexandre, por amor ao senhor, não digas essa frase à minha frente...» «Está bem, mas repara, digo à tipa para não ir a lado nenhum e saio a correr à procura daquelas máquinas de preservativos. Farto já de andar à parva, dirijo-me a um polícia de giro a perguntar "que é da farmácia?!" mas o tipo não percebeu bem o que eu queria, responde-me "Oh amigo, isso farmácia a esta hora só está aberta a de serviço, espere um minuto que eu vou ligar à central... Olhe a farmácia de serviço é a farmácia Zilhão!" agradeço ao senhor agente e lá vou eu à procura da farmácia Zilhão. Ao longe já vejo a luz verde a piscar, vou preparando o trocos e já estou a acabar de contá-los junto à máquina quando sou alertado pelo farmacêutico, que a máquina estava avariada... Pago-lhe uma caixa de seis, e volto já de entusiasmo morninho lá para o raio da lan-party, vou para a praça de táxis a ver se apanho um taxi, que tinha andado tanto que já estava muito longe da lan-party...» enquanto o alexandre recupera o fôlego para acabar a estória, Jubera suspira um «Que noite mais marada oh alexandre» «E ainda não viste nada» retoma o alexandre «A caminho da lan-party, sou abordado por cinco tipos de mau aspecto, mas eu fico na minha, sempre a andar, mas os sacanas vêm ter comigo... E não é que me roubam! Levam-me o telemóvel, o dinheiro e os durex's! Fico sem o número da tipa, sem dinheiro para voltar, e sem durex's outra vez! Fiquei danado, ainda lhes gritei: "Já que não me deixam foder a mim, FODAM-SE VOCÊS TODOS, SEUS GRANDES CABRÕES!!!"»