quarta-feira, 24 de junho de 2009

Semestre Seis

Ler o Livro verde e compreendar a estratégia europeia para o mar, o Plano de ordenamento da orla costeira de Caminha/Espinho com respectivas UOPG's e PMOT's, o Plano Sectorial da Rede Natura 2000, o Domínio Público Hídrico, a legislação aplícavel à Reserva Ecológica Nacional, a Reserva Agrícola Nacional, o PDM, o programa Polis Litoral Norte, a Estratégia Nacional para a Gestão Integrada da Zona Costeira, a Estratégia Nacional do Mar...
Andar de cú para o ar na praia das Avencas a contar cracas de meio milímetro para fazer uma Nested ANOVA (análise de variância aninhada, sim eu sei, parace o nome de uma jogadora de ténis russa, mas há mais...), andar de cú para o ar a contar a biodiversidade existente dentro e fora de enclaves do intertidal e fazer uma MANOVA (está-se mesmo a ver que é uma análise de variância multivariada).. Ou ainda contar lapas e fazer uma ANCOVA (análise da covariância, claro está!)
Ficar prisioneiro da ilha da berlenga por sete dias a contar Podarcis bocagei berlengensis (lagartixas) e fazer um teste-t (este compara médias).
Consultar o Livro Vermelho e saber o estatuto de conservação das espécies, debruçar-me durante um semestre sobre egagrópilas de Tyto alba (regurgitações de Coruja das Torres) ainda húmidas a emanar um cheiro capaz de arrancar o vómito à mais anósmia criatura, tudo isto feito no laboratório de ictiologia, este empregnado com os aromas em fuga dos frascos de mocambo com vinte anos aos quais o alcool/formol usados para conservar os peixes há muito corroeram a borracha que os veda, para no fim fazer um teste do qui quadrado (este distingue valores esperados dos observados) ao número de bichos encontrados.
Aplicar índices de massa corporal, shannon-wiener, simpson, pinkas e avaliar uma comunidade de peixes, observar dezenas de preparações de gónadas de peixes, igual número de escamas e otólitos, averiguando a idade, ah! no mesmíssimo e agradabillíssimo laboratório de ictiologia.
Repetir experiências químicas que de tão básicas e entediantes ainda apertam mais o nó da garganta de não ter passado no exame teórico à primeira, nem à segunda.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A minha amiga Jubera

Era já próximo da passagem de ano. O Alexandre pôs na cabeça que havia de se embiscoirar (verbo empregue no dialecto scalabitano, donde o Alexandre é nativo) com uma mulher ainda antes das últimas badaladas do ano! As possibilidades eram fracas: mulheres que ele conhecia já o conheciam a ele desde há anos, perdia-se assim aquele encanto, tantas vezes enganador, de trocas de olhos fugazes, aquela faísca que o Alexandre procurava «deixem lá isso de relações sérias, pá! Eu só me quero enrolar com alguém antes que acabe o ano!» confessava ele à sua amissíssima Jubera. Esta, perguntava-lhe a modos que perscrutando uma solução para o amigo aflito «Ouve cá, vai na volta estás a ter uma abordagem que não propicia esses tipos de contactos...» «Jubera, te digo que a minha abordagem é infalível!!!» O Alexandre era rapaz de um entusiasmo invejável, cabelo aos caracolinhos, maneiras de um miúdo de doze anos encerradas no corpo de vinte e dois, um pintas de olho esperto e movimentos rápidos, skater de meia-leca, continha, apesar de tudo, um charme raro capaz de agradar ao género de moças que se deixa agradar por isto! «Jubera, ouve-me esta: Chego de sorriso, encosto-me mansinho e digo-lhe ao ouvido baixinho "Alex e durex, 'bora?!"» «Por amor de deus Alexandre estás-me a gozar, esperas que eu acredite que alguém cai nessa? Isso até parece o slogan do restaurador olex» «Até agora, houve uma sardenta com pinta que me pediu para repetir a frase... mas isso não interessa, não vou mudar de estratégia...» Jubera rapidamente esqueceu os delírios do Alexandre, e deixou-se andar sem o ver ainda durante uns tempos bons, ela que tinha a tão desagradável mania de alcovitar o Alexandre com todas as suas amigas, roladas noutros círculos e perfeitamente desajustadas da fibra gingona de Alexandre. Não voltou a ver o Alexandre antes da passagem de ano. Na verdade, desencontros sucessivos ditaram o reencontro dos amigos já a acabar a primavera. «Jubera! Bons olhos te vejam! Nem sonhas como ando aflito, já nem eu próprio acredito! Estava capaz de escalar prédios, ando à míngua desde Abril, vê lá tu bem!» como Jubera o compreende, também ela assaz carente de um calor mais humano que o do gato «Tu também?! Credo, mesmo assim estás melhor que eu, que tive um conforto já longínquo aí numa tarde invernosa de Fevereiro...» Alexandre indigna-se com o lamento «FEVEREIRO?! MAS DE QUE ANO?!» Jubera tinha subestimado a angústia do seu amigo, é que a míngua a que ele se referia já vinha do ano passado! «Maior crueldade passou-se Março passado, levaram-me a uma lan-party em Alcabideche, e lá conheci uma daquelas tipas que se vestem à lolita japonesa, mas uma gaja já com idade para ter juízo!» «Que é isso de lolita japonesa?!» pergunta a Jubera de cara enrugada «Pá, são tipas que a cena delas é vestirem-se de criança mas com roupas provocantes como fazem lá muito no Japão. Bom, com juízo ou não, havia já muito a perder e achei por bem guardar aquela frase que já conheces para um momento mais próprio, por isso convidei-a para beber um red bull e depois pedi-lhe o número de telemóvel!» «Estás a ver Alexandre, aí já soubeste adequar a abordagem!» «Espera! É que acontece que nós estávamos a ligar e eu quebro-lhe mesmo a minha rotina em cima, e a frase pega mesmo!! Eu nem queria acreditar! Só havia um problema: o Alex estava sem durex!» «Oh Alexandre, por amor ao senhor, não digas essa frase à minha frente...» «Está bem, mas repara, digo à tipa para não ir a lado nenhum e saio a correr à procura daquelas máquinas de preservativos. Farto já de andar à parva, dirijo-me a um polícia de giro a perguntar "que é da farmácia?!" mas o tipo não percebeu bem o que eu queria, responde-me "Oh amigo, isso farmácia a esta hora só está aberta a de serviço, espere um minuto que eu vou ligar à central... Olhe a farmácia de serviço é a farmácia Zilhão!" agradeço ao senhor agente e lá vou eu à procura da farmácia Zilhão. Ao longe já vejo a luz verde a piscar, vou preparando o trocos e já estou a acabar de contá-los junto à máquina quando sou alertado pelo farmacêutico, que a máquina estava avariada... Pago-lhe uma caixa de seis, e volto já de entusiasmo morninho lá para o raio da lan-party, vou para a praça de táxis a ver se apanho um taxi, que tinha andado tanto que já estava muito longe da lan-party...» enquanto o alexandre recupera o fôlego para acabar a estória, Jubera suspira um «Que noite mais marada oh alexandre» «E ainda não viste nada» retoma o alexandre «A caminho da lan-party, sou abordado por cinco tipos de mau aspecto, mas eu fico na minha, sempre a andar, mas os sacanas vêm ter comigo... E não é que me roubam! Levam-me o telemóvel, o dinheiro e os durex's! Fico sem o número da tipa, sem dinheiro para voltar, e sem durex's outra vez! Fiquei danado, ainda lhes gritei: "Já que não me deixam foder a mim, FODAM-SE VOCÊS TODOS, SEUS GRANDES CABRÕES!!!"»

sábado, 13 de junho de 2009

13 de Junho

do que vi ou do que vejo não mais sei. uma mulher de cinquenta e qualquer coisa anos sai do carro, é flácida, ajeita o top e manda o cabelo para trás da orelha direita enquanto se prepara para abrir a mala do carro. mas eu continuo a andar. o chão cola do nectar dos jacarandas, suo da testa e limpo-me à manga da camisa. está agora a passar o autocarro que eu não quis apanhar lá em baixo, o painel dizia que demorava oito minutos mas eu tenho raiva de esperar...
não me lembro onde estive ou o que fiz, nada. quando dei por mim estava na linha vermelha do metro, mas não sei em que sentido, subi à superfície e estava em chelas ou em belas, já era dia. mandei parar um taxi, era uma mulher, deitei-me no banco de trás, disse-me que eu estava com mau aspecto e eu respondi-lhe «pois», tinha um ar maternal quando lhe paguei olhou para mim com cara de uma aflição comedida de quem tem a compaixão por um mau estar alheio. dentes mal feitos e cabelo pintado ainda me disse veja lá se dorme. durmo pois, caí na cama e dormi.
no autocarro não me parava a tosse, estava cheio de gente a ir para o trabalho, não tinha horas mas deviam ser horas de ir para o trabalho. não me lembro de o ter apanhado nem de ter saído, tinha um gajo gordo ao meu lado com uma t-shirt promocional branca já velha e transparente e curta que lhe descobria a barriga.
vadiei por umas horas por sitios que habitualmente não passo. ruas vazias estradas caladas, ninguem me pode contactar nem eu posso falar com ninguem, não tenho telemovel, não sabia para onde ia nem sei onde estive, acho que foi em xabregas, ou então foi junto ao rio.
adormeci algures.
na graça dançava-se e fazia-se o comboio à volta da fonte, cheirava a sardinhas obviamente, as pessoas estavam animadas, era estranho parecia estarem mais animadas do que seria suposto, parecia uma encenação, um estado de obrigação, um ânimo festivo auto-imposto... descemos até alfama e depois perdi-me dos outros.
o jantar foi arroz de polvo e lasanha vegetariana, havia cerveja sumos e sévanape e eu fiz sangria tinta mas não bebi que aquilo é muito doce. a salada estava temperada com mel e vinagre e também era muito doce. e o gelado que arrisquei comer também era particularmente doce. as caricas da cerveja davam para abrir sem abre-caricas, tinham uma argolinha que se puxava. falámos de coisas que se falam ao jantar, o trabalho, as férias, onde temos estado, o que queríamos ter feito mas não tivemos tempo ou estávamos demasiado cansados para fazer, e porque é que estávamos muito cansados, os amigos que não vieram e o que é que ficaram a fazer. pedimos ao vizinho que baixe um bocadinho o electrotrance ainda por cima reles, só o suficiente para ouvir a nossa própria música.