quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Tele-vendas

Adoro as tele-vendas! Há dias que aguento-me acordado mais uns quartos de hora só para ver as tele-vendas! Vejo um anúncio e penso que o que estou a ver é tão estúpido e repenso que estou a perder horas de sono por uma coisa tão insignificante, mas os argumentos são de tal forma fantásticos que vou arrastando a ida para a cama recompensado com mais um e outro argumento maravilha! Verdade seja dita, nunca comprei nada por telefone, mas o que é facto é que poucos programas me aguentam no sofá até às cinco da manhã! Não há na televisão nenhum programa que deseje mais a nossa atenção, sinto-me amado (não leiam isto alto!), aquelas pessoas comuns estão mesmo preocupadas com o meu bem-estar, querem que compre uma mopa a vapor para melhor lavar o chão, a fórmula é sempre a mesma independentemente do produto que querem vender.
- Ena Bob, tanto vapor! - diz a mulher impressionada.
- Antes da mopa a vapor eu tinha de carregar um balde e salpicava sempre tudo, mas agora, com a mopa a vapor, eu limpo tudo sem salpicos! - diz uma pessoa comum.
A fórmula é,
1. comparar o revolucionário produto com outros existentes no mercado, e dizer que este produto substituirá uma dúzia de outros;
2. fazer um teste em estúdio para "provar" que o novo produto é muito melhor;
3. recolher testemunhos de pessoas comuns a dizerem como eram difíceis os seus dias antes de conhecerem este produto;
4. fazer um teste na rua, tipo pepsi/coca-cola, para mostrar-nos que mesmo qualquer pessoa escolhida ao acaso atesta a qualidade do produto;
5. pôr um destes "crash-dummies" a dizer - Ena, isto é mesmo bom! Este é meu! Este já não devolvo! - enquanto abraçam o maravilhoso produto;
6. por fim, entra a voz-off a dizer que esta é uma oferta muito limitada mas se ligar já, pode pagar em trinta e seis meses com poucos juros e ainda oferecem um livro de receitas no micro-ondas;
E assim se faz um belo e cativante anúncio! Não se esqueçam das vozes das dobragens, sempre, mas sempre, descoordenadas e com um entusiasmo superior ao demonstrado pelos actores, e ás vezes ainda se mete um antiga glória do wrestling, baseball ou do boxe para nos aproximar do produto: se o Hulk Hogan tem um grelhador sem fumo, eu também quero um!

Carnaval em Carcavelos

Enterra as botas de napa, baratas, na areia poeirenta aquela areia que não é lavada pelo mar. Olha para o filho enternecida, vê-o brincar com formas, um balde do spider-man, e um bocado de lixo que o mar trouxe à costa. A mãe continua a vê-lo sem o repreender de brincar com o lixo (hoje evitará conflitos: o cansaço da semana dita a não repreensão), ajeitou uma pedra menos dura para se sentar a coberto da areia poeirenta e levanta a cara ao sol, o miúdo faz um montinho de areia coberto de conchas, caricas, tampinhas e papéis.
O aroma a maresia é quase insuportável. A merda que vem do esgoto agora não se sente: está maré cheia, mas há o cheiro que emana das algas e intensifica a maresia, é nauseante. E as algas são tantas e o cheiro tão intenso, brilham ao sol molhadas pelo mar que ondula. Nas ondas vêem-se sacos de plástico, latas que bóiam e uma tampa sem balde.
Lolitas andam soltas a pavonear-se pelo paredão, levam blusinhas frescas umas de pernas à mostra outras de jeans afilados nos artelhos a acabar numas botas gigantes - que raio de moda - e emproam os princípios de mamas, olham furtivamente para os rapazes de t-shirts despidas, estes exibem os corpos depilados forjados no ginásio, usam tatuagens e levam cães agressivos à trela. Andam de braços arqueados como quem apanhou um escaldão.
Lagartos, noddy's, peter pan's, spider man's, princesas, brancas de neve.
Andam outros mascarados na praia, mais precisamente no mar, usam fatos de neoprene e estão montados numa prancha, são mais de cem mas mesmo assim há ondas que chegam até à costa sem serem surfadas.
O povo sedento de sol acorre às praias em Fevereiro, parece Agosto. Se em Agosto estivesse este tempo ninguém iria à praia, mas é Fevereiro. Num raro momento abre-se uma clareira entre a multidão e aterram uns maçaricos a debicar apressadamente por entre as areias. Na areia não se consegue sacudir a toalha sem chatear alguém, uma mulher gorda, a transbordar do fato-de-banho, tira uns pastéis de bacalhau de uma tupperware... No mar passam os iates ao sabor do vento, longe alheios à confusão da costa, suspeito de long drinks e canapès.
Queques acotovelam-se nas esplanadas, cheira a dior, calvin klein, e dolce & gabbana, bebem sucos de abacaxi com hortalã e lamentam não ter ido ao Rio este ano, mas garantem ir já no próximo.
O fim do dia chega, o povo recolhe a casa, amanhã é dia de trabalho, quem está habituado às rotinas parece não se incomodar com mais umas horas valentes de trânsito para sair da praia.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Martim Moniz

Apanho o metro em alvalade, linha verde, sigo na direcção do cais do Sodré. Hoje vou fazer caril! Sabem aquela dificuldade de cozinhar em casa pratos de uma dada região que nunca sabem como se lá estivéssemos? Senti isto pela primeira vez nos estados unidos quando foi pedido aos alunos para cozinharem um prato típico do país de origem. Escolhi o bacalhau à braz, pela aparente facilidade de execução mas achar bacalhau salgado depressa se revelou uma impossibilidade... Contentei-me com bacalhau fresco achado numa loja gourmet. Escusado será dizer que embora o prato tivesse saído bem, não era de todo "bacalhau à braz"!!
A cozinhar em casa haverá maior gozo que adulterar receitas com nomes seculares?! A história da culinária baseia-se nestas pequenas fraudes cometidas. Agora de vez em quando há pratos que não quero de forma alguma alterar: um chili, um caril, sushi, uma moqueca... Mas para isso são necessários, impreterivelmente, os ingredientes essenciais! Dendê para a moqueca, vinagre da arroz para o sushi (entre outros), e cardamomos, caril, erva doce e cravinho para a cozinha indiana, no mínimo! Enquanto alguns ingredientes se encontram em qualquer lado, outros há que ou vamos ao país de origem ou vamos ao sítio onde vivem e comem os imigrantes. Já quando comecei a fazer sushi mandei antes um e-mail à embaixada do Japão a perguntar-lhes onde poderia encontrar chás e ingredientes japoneses, e eles responderam! Claro que para os pratos indianos a resposta salta à vista, ou mais precisamente ao nariz!
No metro em direcção ao Martim Moniz, logo no intendente já cheira a caril!!! Saio no Martim Moniz e parece que atravessei, qual acontecimento Bíblico, os portões da Torre De Babel, na estranha forma daquele centro comercial que também se ergue alto subindo uma das colinas de Lisboa! Quem não conhecesse o mundo diria que a diversidade de línguas da humanidade nasceu ali, na Praça do Martim Moniz. Todas a raças, todos os credos, todos os costumes! É incrível! Não há melhor manifestação da tolerância de um povo: outros países relegam os imigrantes para guetos isolados, em portugal vivem e trabalham numa das mais destacadas praças da Capital!
Ao mesmo tempo, e este foi realmente o assunto que me levou a falar do Martim Moniz, não há praça mais irónica em Portugal, vejam lá:
Martim Moniz, foi um nobre ao serviço do Afonso Henriques - nosso fundador que veio desde Guimarães a aviar fruta em tudo o que mexia (incluindo a própria mãe!) mas chegando a Lisboa dá de caras com a porta do castelo... Ora dizem que o Martim era um xenófobo de primeira, incapaz de sair do pé do portão tal era o seu asco pelos mouros! Um destes mouros terá um dia aberto a porta mais que uma nesga, e foi o suficiente para que o Martim no seu sentido mais nacionalista conseguisse ficar entalado no portão! Isto permitiu que o nosso D. Afonso, que já desde o início do cerco ressacava uma boa pancadaria, entrasse pelo castelo a ceifar mouros a torto e a direito, baptizando o castelo de S. Jorge! Agora o que eu acho realmente engraçado é que este pobre xenófobo deu a vida para que os portugueses ganhassem uma Capital, capital esta que baptiza uma grande praça com o nome dele, e na maior e mais irónica reviravolta, os mouros, asiáticos e africanos formam aquela que é a mais plural praça portuguesa: A Praça do Martim Moniz!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Recado ao António Lisboa

António Lisboa, a tua vida tem mais que isto algum dia terás que crescer, eu sei que tens emprego e casa mas és um imaturo. Quando eu te conheci eras um tanso, vestias-te mal e fazias as raparigas olharem para outro lado. E depois, de repente, passaste a seduzir tudo o que mexia, (nem por isso giras) se bem me lembro não houve gaja feia que não tivesses comido, és um merdas e tratas as mulheres como garrafas de whisky (depois de bebidas mandam-se fora), tens de procurar mulheres porque as que não conheces até têm interesse em conhecer-te mas as que te conhecem preferiam não te ter conhecido, arrastas-te até à clínica por imposição minha. No lugar de largares o whisky usas as sessões para te atracares a uma encalhada qualquer. Nem largas um vício, arranjas logo outro, és destrutivo. Como os poetas, mas esses deixam obra, e tu o que é que deixas? Não deixas nada. Tu deves-me mais do que isto António, à minha irmã também. O teu filho cresce à minha frente e tu envelheces sem ninguém dar por nada. O teu real problema António, e agora vou-te mandar abaixo mas aguenta que em seguida já te dou a mão, o teu problema é que ainda não admitiste que sempre foste triste, és um triste que não se apega a nada, és anormal. Até os cães são capazes de amar, jubilam só de cheirar os que amam. Tu foste desprovido do teu dia-a-dia e nem pestanejaste, perdeste uma mulher que te amava e nem envidraçaste os olhos, algum dia vais ter que chorar António. Mas eu compreendo-te, seria incapaz de sentir o que sentes, mas percebo que o possas sentir e vou-te explicar porque o sentes.
Se bebes és capaz de partir um bar a pontapé, no entanto sóbrio és um frouxo. Se verteres uma lágrima o mundo continuará António. E ainda não verteste nenhuma. Tentas fugir à realidade e pareces conseguir, mas na realidade apenas adias a percepção da tua triste existência. Sim António a tua existência, nesta fase, é triste. É preocupante mesmo, fico sem saber o que esperar de ti: às vezes quando te levo tabaco receio ou anseio - não sei bem qual - encontrar-te pendurado no camarão do lustro...
Mas António, vou-te ensinar a chorar, vou-te mostrar o que perdeste, vou-te mostrar que havia coisas que amavas, mesmo que não o soubesses. E quando te aperceberes disso, aí António, chorarás desalmadamente, pedir-me-ás perdão, lamentarás a tua vida, mas vais então começar a construir outra vida, outra existência, e aos poucos, verás António, aos poucos voltarás a ver alegria à tua volta, terás um amanhã mais rico que o hoje e a tua vida poderá continuar a não fazer sentido, mas tu não te preocuparás mais.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Benaventices (VI)

Metade da minha família são médicos, a outra metade são agricultores, desde há gerações... O meu pai é agricultor, e eu tendo crescido no meio passava as férias a ir ao campo com o meu pai ou o meu primo, ou ir arranjar vedações, montar cercas eléctricas, dar palha às vacas, carregar fardos de palha, enfim, o que fosse preciso. Houve um verão que até fui pago para isto. Se há coisa que acho piada é às estórias do campo, ora vejam lá estas:

O meu pai chega à sesmaria santana (nome duma charneca que lá tínhamos) e vê o moural todo partido e amassado...
- Eh Homem! Então o que é que lhe aconteceu?!
E o moural que tantas vezes se perdia de bêbedo, lá explicou
Oh Patrão Chico, 'tava bêbedo, fui dar palha às vacas, 'tava a ver tudo a dobrar... Vêm de lá dois toiros! Eu ponho-me a correr, vou direito aos dois sobreiros mas pus-me atrás da sobreiro que não era, vem de lá o toiro que era! Aviou-me uma coça, oh patrão Chico, pensava que me ia matar!

Outros empregados, com os quais trabalhei, era o Silvino (nós chamávamos-lhe Ibino), o Bonanza (usava um daqueles chapéus de pala à frente e atrás, fazia lembrar um chapéu à cowboy com a aba presa dos lados, quem nem o verdadeiro Bonanza), e o chefe, que fazia a comunicação entre o pessoal iletrado e o meu pai, o António Marmelo (alcunhado pela calada como o Gamboa!)
(o Marmelo a explicar ao Ibino como gradar a terra)
-Oh Ibino! 'Tás a ver além o choupo?
-Tou S'toino, tou!
-Então oh ibino, vais direito ao lado esquerdo do choupo sempre a gradar a direito, percebeste?!
-Percebi, S'toino! -Então faz lá uma linha p´ra gente ver
O Ibino faz a linha, começa a enviesar vai parar ao lado direito do choupo! (Quando chega) -Oh Ibino, tu 'tás a gozar comigo!! -Na tou nada S'toino...! o ibino falava sempre num tom de quem nunca faz nada com jeito, meio a desculpar-se, meio a lamentar-se.
Então fizeste a linha pró lado direito do choupo! Vai lá outra vez fazer como eu te disse. (O ibino faz a linha, mas agora bem, quando chega, o Marmelo reagiu ainda pior que da primeira vez) -Oh ibino! Tu tás a gozar comigo!!! Oh Ibino TU QUERES ANDAR À PORRADA COMIGO IBINO!
-Oh S'toino, na 'tou nada a gozar! dizia o desgraçado do ibino,
-Atão olha lá, se agora fizeste isso bem, porque é que não fizeste bem à primeira?! Tu tás a gozar comigo!