quarta-feira, 15 de abril de 2009

Marinheiro de Banheira

Ia intitular este post de "Marinheiro de Água Doce", mas acho que ainda assim seria abusivo tendo em conta a história que vou contar.
Desde há tempos que o meu pai tem tido sempre um barco, no início comprou um barco de plástico verde. Era um barco bem pequeno, levava no máximo 3 pessoas, que ele tinha comprado para ir à pesca no rio e que mais tarde era levado em cima da carrinha galaxy lá para o algarve para fazermos a travessia da ria formosa. A cada barco houve sempre cóboiadas várias, com este verde a mais gira que me lembro (e atenção que esta não me coube a mim!), ocorreu quando, seguindo na à data chamada via do infante, numa descida e enquanto os mais pais rolavam pela estrada, foram ultrapassados pela esquerda por um objecto verde que seguia a alta velocidade: o barco tinha caído da carrinha e foi a raspar nos rails até acabar a descida!
Agora se acham isto incrível, continuem a ler porque ainda não viram nada. Achadas as limitações do pequeno barco verde, o meu pai decidiu-se a comprar um maior, cabinado e a motor, o risco de ser ultrapassado pelo próprio barco em plane via do infante estava agora eliminado já que o barco era atrelado à carrinha. Com este barco, tirei a carta de marinheiro e fiquei legalmente habilitado para o navegar, apesar, claro, como todos os meus queridos leitores o sabem, isto de tirar a carta, quer na estrada quer no mar, poucas ou nenhumas garantias oferece quanto à segurança da condução... Posto isto, nada de bom se adivinha, com este barco cabinado navegava eu subindo o rio Gilão em direcção a Tavira, o barco carregado de gentes e haveres (facto que desconsiderei), quando no galgar de uma onda formada por um daqueles barcalhões que fazem a ligação Tavira - Ilha de Tavira, e por culpa da minha abordagem frontal, o barco já por si com uma proa baixa, ainda mais baixa de tão carregado, não teve altura suficiente para quilhar a onda o que fez com que o barco travasse bruscamente, não fosse a minha amiga Alexandra (nome fictício) e teria ido com certeza borda fora...
Mais uns anos volveram e nova troca de barco, agora um já com cinco metros, consola central, toldo, deck e um valente motor de cinquenta cavalos, inicialmente estava ali em Vila Franca e numa bela primavera, num dia que tinha amanhecido calmo e agradável nunca pensei voltar a terra com a sensação de ter dobrado o cabo das tormentas, ora vejam:
Como já tinha dito, os dias andavam a apetecer e finalmente convidei uns amigos para ir dar um passeio no Tejo, levar um farnel, ver os flamingos cegonhas e outros que tais, enfim passar um dia de sábado tranquilo! Zarpamos do cais de Vila Franca e navegamos calmamente em direcção à foz, eu tinha tudo pensado: iniciávamos a viagem a favor da corrente, porque à volta a maré virava e vínhamos a favor dela. Tranquilíssimos navegando um Tejo espelhado acercamos-nos do primeiro mochão, havia uns quantos barcos de gente à pesca da corvina, fomos continuando, eu sempre a controlar a sonda não fosse o caso de surgir algum baixio quando de repente ouço um estrondo enorme! Desligo o motor imediatamente, o barco tinha batido nalguma coisa, volto a confirmar a sonda: metro de vinte de fundo, de sobra para o barco em questão. Algo atrapalhado por não saber no que bati, não se esqueçam que a visibilidade no Tejo é de dez centímetros, levanto o motor para ver se bati com o casco ou o hélice, e uma vez erguido o motor a resposta ergueu-se com ele, uma das pás do hélice já lá não estava...(mais tarde vim a saber que ali onde bati jaz um maciço de betão que outrora fixava um farol, deixaram-no lá sem o sinalizarem...) Encaminho-me para o cais de Alhandra, a fim de averiguar melhor os estragos, espreitar para dentro do casco, voltar a examinar o hélice e o estado do eixo, achei (outra vez erradamente) que podíamos continuar. Voltamos para o meio do rio e mais perto de outro mochão, lanço o ferro para almoçarmos. Não sem mais uma cóboiada, a abrir o toldo liberto a fúria dum vespeiro lá instalado... Lá almoçamos, e dito o rumo, navegaremos pelos canais entre o mochão até chegar ao outro lado da ilha, um braço estreio que liga ao Tejo perto do sítio onde tinha batido, o chamado mar da palha. Essa zona dos canais era muito gira, permitia uma observação da bicheza muito mais próxima e toda a paisagem era encantadora, o problema é que esta rede de canais navegáveis deu lugar a um Tejo imenso assim que a maré subiu, e aquilo que inicialmente era uma navegação sossegada por canais tornou-se numa agastante tentativa e erro de navagar e encalhar. Pulo do barco, e com água pela cintura encaminho o barco até ao famoso mar da prata.
Nesta altura a maré tinha virado a tempo, tal como eu previra, de nos ajudar a regressar a Vila Franca. A merda é que com a maré veio um vendaval incrível, e aquele braço de água sossegado de repente virou um mar revoltoso! O vento contra a maré, a velocidade da maré aumentada pelo estrangulamento do rio, e à nossa frente erguiam-se ondas maiores que aquelas que já havia enfrentado no mar! Navegando em zig-zag para abordar as ondas a quarenta e cinco graus, demorei o dobro do tempo a ganhar a batalha do mar da prata, já no meio do Tejo, confirmo o combustível: o nível indica um quarto de depósito, os meus convidados estão molhados até ao osso e enregelados, encostados à popa para se furtarem ao vento quando o motor pára! Tentar ligar o motor, e outra vez, e outra... Não liga, e agora?! A Vanda (nome fictício) liga para a marinha, estacionada ali em Alhandra haviam de me ajudar! Ao meu pedido de auxílio respondem «Sabe, é que nós temos a nossa lancha avariada...» Aaaarrrghhh! Que raiva! Felizmente estava a passar um cagaréu (nome dado aos pescadores de Vila Franca que à falta de melhor sítio para cagar no meio do rio, cagam à ré) que nos rebocou até Vila Franca. Já com o barco em terra ainda arranjo maneira de bater com o meu pé descalço num calhau, sangrando abundantemente...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Inquietação

Lets dance in style, lets dance for a while
Heaven can wait were only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?
Let us die young or let us live forever
We dont have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The musics for the sad men
Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the sun
Praising our leaders were getting in tune
The musics played by the madmen
Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever

alphaville


Espreita-me ao longe e esconde-se, mas eu fito-a.

Continuo a andar e pergunto-me quem era que me fitava, pareceu-me familiar mas não o suficiente para me levar a dobrar a esquina a identificá-la.

Ando mais e ainda a pensar nela já se me seca a boca, que raio, por que me espreitou ela? Eu não a chamei, eu sigo aqui nos carris que me empurram para onde quero ir.

Mas eu sei, a mudança é mais fácil que a constante, rapo o cabelo, mudo de nome e de país a ter que voltar a fazer o que já fiz, bem ou mal, já o fiz.

Descobrir é que me sobra, só isso me acalma a inquietação.