Ia intitular este post de "Marinheiro de Água Doce", mas acho que ainda assim seria abusivo tendo em conta a história que vou contar.
Desde há tempos que o meu pai tem tido sempre um barco, no início comprou um barco de plástico verde. Era um barco bem pequeno, levava no máximo 3 pessoas, que ele tinha comprado para ir à pesca no rio e que mais tarde era levado em cima da carrinha galaxy lá para o algarve para fazermos a travessia da ria formosa. A cada barco houve sempre cóboiadas várias, com este verde a mais gira que me lembro (e atenção que esta não me coube a mim!), ocorreu quando, seguindo na à data chamada via do infante, numa descida e enquanto os mais pais rolavam pela estrada, foram ultrapassados pela esquerda por um objecto verde que seguia a alta velocidade: o barco tinha caído da carrinha e foi a raspar nos rails até acabar a descida!
Agora se acham isto incrível, continuem a ler porque ainda não viram nada. Achadas as limitações do pequeno barco verde, o meu pai decidiu-se a comprar um maior, cabinado e a motor, o risco de ser ultrapassado pelo próprio barco em plane via do infante estava agora eliminado já que o barco era atrelado à carrinha. Com este barco, tirei a carta de marinheiro e fiquei legalmente habilitado para o navegar, apesar, claro, como todos os meus queridos leitores o sabem, isto de tirar a carta, quer na estrada quer no mar, poucas ou nenhumas garantias oferece quanto à segurança da condução... Posto isto, nada de bom se adivinha, com este barco cabinado navegava eu subindo o rio Gilão em direcção a Tavira, o barco carregado de gentes e haveres (facto que desconsiderei), quando no galgar de uma onda formada por um daqueles barcalhões que fazem a ligação Tavira - Ilha de Tavira, e por culpa da minha abordagem frontal, o barco já por si com uma proa baixa, ainda mais baixa de tão carregado, não teve altura suficiente para quilhar a onda o que fez com que o barco travasse bruscamente, não fosse a minha amiga Alexandra (nome fictício) e teria ido com certeza borda fora...
Mais uns anos volveram e nova troca de barco, agora um já com cinco metros, consola central, toldo, deck e um valente motor de cinquenta cavalos, inicialmente estava ali em Vila Franca e numa bela primavera, num dia que tinha amanhecido calmo e agradável nunca pensei voltar a terra com a sensação de ter dobrado o cabo das tormentas, ora vejam:
Como já tinha dito, os dias andavam a apetecer e finalmente convidei uns amigos para ir dar um passeio no Tejo, levar um farnel, ver os flamingos cegonhas e outros que tais, enfim passar um dia de sábado tranquilo! Zarpamos do cais de Vila Franca e navegamos calmamente em direcção à foz, eu tinha tudo pensado: iniciávamos a viagem a favor da corrente, porque à volta a maré virava e vínhamos a favor dela. Tranquilíssimos navegando um Tejo espelhado acercamos-nos do primeiro mochão, havia uns quantos barcos de gente à pesca da corvina, fomos continuando, eu sempre a controlar a sonda não fosse o caso de surgir algum baixio quando de repente ouço um estrondo enorme! Desligo o motor imediatamente, o barco tinha batido nalguma coisa, volto a confirmar a sonda: metro de vinte de fundo, de sobra para o barco em questão. Algo atrapalhado por não saber no que bati, não se esqueçam que a visibilidade no Tejo é de dez centímetros, levanto o motor para ver se bati com o casco ou o hélice, e uma vez erguido o motor a resposta ergueu-se com ele, uma das pás do hélice já lá não estava...(mais tarde vim a saber que ali onde bati jaz um maciço de betão que outrora fixava um farol, deixaram-no lá sem o sinalizarem...) Encaminho-me para o cais de Alhandra, a fim de averiguar melhor os estragos, espreitar para dentro do casco, voltar a examinar o hélice e o estado do eixo, achei (outra vez erradamente) que podíamos continuar. Voltamos para o meio do rio e mais perto de outro mochão, lanço o ferro para almoçarmos. Não sem mais uma cóboiada, a abrir o toldo liberto a fúria dum vespeiro lá instalado... Lá almoçamos, e dito o rumo, navegaremos pelos canais entre o mochão até chegar ao outro lado da ilha, um braço estreio que liga ao Tejo perto do sítio onde tinha batido, o chamado mar da palha. Essa zona dos canais era muito gira, permitia uma observação da bicheza muito mais próxima e toda a paisagem era encantadora, o problema é que esta rede de canais navegáveis deu lugar a um Tejo imenso assim que a maré subiu, e aquilo que inicialmente era uma navegação sossegada por canais tornou-se numa agastante tentativa e erro de navagar e encalhar. Pulo do barco, e com água pela cintura encaminho o barco até ao famoso mar da prata.
Nesta altura a maré tinha virado a tempo, tal como eu previra, de nos ajudar a regressar a Vila Franca. A merda é que com a maré veio um vendaval incrível, e aquele braço de água sossegado de repente virou um mar revoltoso! O vento contra a maré, a velocidade da maré aumentada pelo estrangulamento do rio, e à nossa frente erguiam-se ondas maiores que aquelas que já havia enfrentado no mar! Navegando em zig-zag para abordar as ondas a quarenta e cinco graus, demorei o dobro do tempo a ganhar a batalha do mar da prata, já no meio do Tejo, confirmo o combustível: o nível indica um quarto de depósito, os meus convidados estão molhados até ao osso e enregelados, encostados à popa para se furtarem ao vento quando o motor pára! Tentar ligar o motor, e outra vez, e outra... Não liga, e agora?! A Vanda (nome fictício) liga para a marinha, estacionada ali em Alhandra haviam de me ajudar! Ao meu pedido de auxílio respondem «Sabe, é que nós temos a nossa lancha avariada...» Aaaarrrghhh! Que raiva! Felizmente estava a passar um cagaréu (nome dado aos pescadores de Vila Franca que à falta de melhor sítio para cagar no meio do rio, cagam à ré) que nos rebocou até Vila Franca. Já com o barco em terra ainda arranjo maneira de bater com o meu pé descalço num calhau, sangrando abundantemente...
Há 16 anos