Numa tarde dessas quentes juntou a roupa num molhe e meteu-a a lavar, o Coringa não é dado aos virtuosismos dos armários vastos, e a roupa que tem cabe numa única máquina de lavar ou numa mala de transporte de tamanho suficientemente reduzido para embarcar nos aviões sem fazer check-in, pois daqui a uma semana, tanto pode estar aqui como num bar em Bombaim... A tarde quente havia de permitir que a roupa secasse ainda nesse dia, Coringa recebeu uma corvina e três larvas de bacalhau: em breve terá uma missão.
Coringa é agente do S.I.S. mas nem o serviço sabe quem ele é, move-se como um fantasma, ou um homem sem rosto, e nem sentido de humor tem: não percebe piadas e tem mau gosto a contá-las. O nome de código que lhe deram adveio da maneira como exigiu ser contactado, quem o contratar (sim, porque se o homem é invísivel tem margem para trabalhar para quem quiser, haja dinheiro) deverá, primeiro que tudo, ter a tecnologia para o fazer, o envio da informação necessária ao trabalho é fornecido de um modo que de tão insólito nos levaria a pensar ser impossível, mas essa dificuldade é apenas uma pequena fracção do custo total dos serviços exímios desta sombra. Coringa recebe peixes e larvas de peixes que foram submetidos a condições especiais de maneira a que os otólitos (estruturas mineralizadas presentes no ouvido interno dos peixes e indicadoras por meio de bandas de crescimento rápido e lento, alternadamente que nem os anéis nos troncos de árvores, dos anos ou dias de vida dos ditos animais) indiquem nas suas bandas alternadas os números associados à missão: é composto um código de barras correspondente a treze algarismos, quatro expressos nos otólitos do peixe adulto e os restantes três nos de cada uma das larvas da maior para a mais pequena. Para extrair os otólitos aos peixes, Coringa tem de fazer um golpe pelo canto da boca do peixe até à abertura branquial, daí o nome de código. Uma vez extraídos e analisados, Coringa tem o número que precisa para a sua missão.
5648347948559
Coordenadas GPS, Identificação, Data.
A base de dados está na net à vista de toda a gente, mas sem o algoritmo de interpretação, não é mais que uma lista fútil de nomes sem relação aparente, e ficheiros pesados de perfis de DNA.
A máquina já acabou de lavar e Coringa já tem a sua missão: duzentos e poucos quilómetros a sul de Jacarta, daqui a seis dias, deverá aniquilar o sujeito. Ele nunca saberá quem matou: o agente patogénico é específico do alvo e actua ao fim de vinte e oito horas, tempo suficiente para escurecer a sombra de Coringa. De volta a casa, espera-o uma corvina já escalada no congelador...
Há 16 anos