sexta-feira, 6 de março de 2009

Entre Estações

Está sentado junto à janela imerso nele próprio, sozinho entre as pessoas, quando de repente repara numa mulher muito cheia de pinta, ele conhece-a! Ela está de frente para o caminho mas do outro lado do corredor, na coxia, na sua diagonal. De costas para a vida ergue-se um pouco e fica a mirá-la pelo reflexo, sim, já se têm visto, lançam olhares fugazes um ao outro mas nunca se abordaram e sempre que os olhares se cruzam ele é sempre o primeiro a desviar o olhar, como se o olhar dela fosse uma lanterna que lhe ofusca os olhos. Assim que reparou nela no metro começou a suar das mãos e do cu e dos sovacos, é um tipo algo repugnante, bruto, duvido que, havendo essa possibilidade, houvesse algo para lapidar. Ela bate com os olhos nos reflexos que a questionam e ele manda-os para o chão de imediato, agora está tão contraído que inspirou de um só sorvo sonoro, felizmente abafado pelos travões, altifalantes, as africanas, o cego que pede.
As pessoas seguem sem cara, não se adivinham características algumas, talvez a languidade de um cabelo sujo, a escolaridade de uma pasta, a erudição de um mp3, no silêncio dos barulhos mudos ele já não suporta as perguntas sonoras que se lhe assaltam na consciência: ela observa-te? ela conhece-te? Ela interpreta-te? Não aguenta mais tanta questão, decide, embora o destino seja o cais do sodré não passará da próxima estação. Ela aparenta estar calma e alheia a tudo. De soslaio, dá miradas para o lado direito, tenta avaliar o tipo de homem que a tem intrigado, a postura, as feições agrestes, o sobrolho cerrado, qual é a história dele? De onde ele é? Onde trabalha? Porque não a aborda?! Ela inquieta-se, a carruagem começa a ser pequena para os dois, sentem mutuamente, mas cada um no seu espaço, uma tensão que cresce, um ar que se adensa, e há também os cheiros maus, é qualquer coisa de ar saturado com perfumes aespanholados e suores que se pairam a meia altura, como que a boiar à altura do nariz das pessoas. E ela ainda mais inquieta por o conhecer de vista e este não a olhar, ele, de resto, continua virado para o vidro à espera que chegue alvalade, e alvalade parece nunca mais chegar. Desde que se olharam, ainda quando o metro estava no campo grande, que escolheram não se falar e remoem-se por ansiar fazê-lo, mas já foi o momento: ou era quando se viram ou fingem não se ter visto. Mas o fingimento está a tornar-se asfixiante, já mal respiram quando as portas finalmente se abrem e correm os dois para a plataforma de olhos pelos chão, o homem vai para sul, ela vai para norte.

1 comentário:

Anónimo disse...

E como t diss,

Lá está o teu jeito especial para escrever a expressar-se novamente =)*