sábado, 13 de junho de 2009

13 de Junho

do que vi ou do que vejo não mais sei. uma mulher de cinquenta e qualquer coisa anos sai do carro, é flácida, ajeita o top e manda o cabelo para trás da orelha direita enquanto se prepara para abrir a mala do carro. mas eu continuo a andar. o chão cola do nectar dos jacarandas, suo da testa e limpo-me à manga da camisa. está agora a passar o autocarro que eu não quis apanhar lá em baixo, o painel dizia que demorava oito minutos mas eu tenho raiva de esperar...
não me lembro onde estive ou o que fiz, nada. quando dei por mim estava na linha vermelha do metro, mas não sei em que sentido, subi à superfície e estava em chelas ou em belas, já era dia. mandei parar um taxi, era uma mulher, deitei-me no banco de trás, disse-me que eu estava com mau aspecto e eu respondi-lhe «pois», tinha um ar maternal quando lhe paguei olhou para mim com cara de uma aflição comedida de quem tem a compaixão por um mau estar alheio. dentes mal feitos e cabelo pintado ainda me disse veja lá se dorme. durmo pois, caí na cama e dormi.
no autocarro não me parava a tosse, estava cheio de gente a ir para o trabalho, não tinha horas mas deviam ser horas de ir para o trabalho. não me lembro de o ter apanhado nem de ter saído, tinha um gajo gordo ao meu lado com uma t-shirt promocional branca já velha e transparente e curta que lhe descobria a barriga.
vadiei por umas horas por sitios que habitualmente não passo. ruas vazias estradas caladas, ninguem me pode contactar nem eu posso falar com ninguem, não tenho telemovel, não sabia para onde ia nem sei onde estive, acho que foi em xabregas, ou então foi junto ao rio.
adormeci algures.
na graça dançava-se e fazia-se o comboio à volta da fonte, cheirava a sardinhas obviamente, as pessoas estavam animadas, era estranho parecia estarem mais animadas do que seria suposto, parecia uma encenação, um estado de obrigação, um ânimo festivo auto-imposto... descemos até alfama e depois perdi-me dos outros.
o jantar foi arroz de polvo e lasanha vegetariana, havia cerveja sumos e sévanape e eu fiz sangria tinta mas não bebi que aquilo é muito doce. a salada estava temperada com mel e vinagre e também era muito doce. e o gelado que arrisquei comer também era particularmente doce. as caricas da cerveja davam para abrir sem abre-caricas, tinham uma argolinha que se puxava. falámos de coisas que se falam ao jantar, o trabalho, as férias, onde temos estado, o que queríamos ter feito mas não tivemos tempo ou estávamos demasiado cansados para fazer, e porque é que estávamos muito cansados, os amigos que não vieram e o que é que ficaram a fazer. pedimos ao vizinho que baixe um bocadinho o electrotrance ainda por cima reles, só o suficiente para ouvir a nossa própria música.

2 comentários:

Filipa Mariana Pereira disse...

Pró ano vens comigo. Pronto. Tenho dito! Onde é que já se viu acabar em Chelas ou em Belas?

joana disse...

Não estou a perceber onde está a ficção nesta história ;)

beijo