Quem me conhece sabe o quão penoso pode ser andar comigo de carro. Praguejo e resmungo com os demais ocupantes da via, levo a um estado tal de enervação, o meu pendura. Dizem-me que devo ter mais calma e ser menos emocional, mas eu digo-vos que o meu problema é racionalizar demasiado.
Se para comprar bilhetes, ou usufruir de qualquer serviço, existir uma fila, esperarei pacientemente a minha vez... Se encontrar alguém conhecido à porta dos correios, deslocar-me-ei para não impedir a passagem dos outros... Se for de noite, não ligarei o aspirador... Na estrada, as minhas reacções explosivas não ocorrem por eu ser nervosinho, mas apenas porque sou escrupuloso no respeito pelo próximo e não espero menos, nunca, daquele que comigo interage. Eu não nunca estaciono em segunda fila (e há aqueles que quando me entalam por ter estacionado no espaço devido, aparecem depois de eu me fartar de buzinar e ainda têm a lata de dizer - até parece que você nunca estacionou em segunda fila?!), eu não uso as faixas do BUS, eu alterno a cedência de passagem nos entroncamentos, é tudo uma questão de respeito pelo próximo...
Nas filas que se criam à porta dos serviços, pouca gente ousará passar à frente de alguém, isto porque será fulminado pelo olhar furioso daqueles que esperam há já algum tempo, poderá mesmo ser mandada alguma boca, ou pior, correr tudo a chapada, ou talvez nada disto ocorra porque alguém na fila disse - Desculpe mas esta linha de gente atrás uma da outra chama-se fila e o seu lugar é lá atrás... Mas não se o prepotente javardo seguir na sua viatura, aí sentir-se-á a salvo de olhares cruéis e ameaças verbais (ás vezes...) ou então está-se pura e simplesmente cagando para os outros, e mete-se à frente das filas de trânsito, ou estaciona em segunda fila, mete-se à papo-seco nas rotundas e coisas do género.
Epá porque o que dá mesmo vontade é de instalar um pára-choques de titânio, daqueles tubulares, e ansiar para que um destes caramelos se meta à nossa frente indevidamente, e aí em vez de travar e evitar um acidente do qual o outro seria o culpado, acelerar e partir-lhe o carro todo...
Mas aquele que andar comigo de carro reparará que eu só me enervo com questões que envolvam o respeito mútuo, senão reparem: um gajo conduz a cinquenta à hora numa zona de noventa, eu fico impaciente porque o gajo está a limitar a minha liberdade de me movimentar na estrada, e se um velho se faz a uma passadeira e demora cinco minutos a atravessá-la, eu até espero (e com uma paciência invejável!) que ele chego até ao outro passeio, mas se outro gajo conduz um carro à monocarril, i.e., com o carro em cima da linha que divide duas faixas, eu sou bem capaz de apitar e gritar-lhe - 'tás em boa altura para andar de metro!
Há 16 anos
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