quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pau de Arara

Eu um dia cansado que tava
da fome que eu tinha
eu não tinha nada
que fome que eu tinha,
que seca danada no meu Ceará
eu peguei e juntei
um restinho de coisas que eu tinha:
duas calças velhas e uma violinha
e num pau de arara
toquei para cá.
E de noite eu ficava na praia de Copacabana
zazando na praia de Copacabana
dançando o chachado pras moças olhá

Vinicius de Moraes

Um pau de arara foi um instrumento de tortura usado no Brasil durante a ditadura, consiste em prender uma pessoa numa vara pelos joelhos, como num trapézio, e depois amarrar as mãos à frente das tíbias passando os braços por baixo da vara. Com a pessoa assim pendurada, fazia-se depois trinta por uma linha, portanto, a tortura propriamente dita.
Hoje o nome pau de arara é dado a uns "autocarros" do nordeste brasileiro, autocarros está entre aspas porque aquilo são na verdade camiões de caixa aberta com um toldo e uma escada na caixa que vai apanhando gente pelo caminho... Não é dificil perceber porque chamam pau de arara àquilo, é que andar num deve ser pelo menos parecido a ser torturado no outro!
Mas por que é que eu me lembrei do pau de arara?! É que (tenho que abrir um parênteses para enaltecer a melhoria dos transportes, mas) andar de autocarro em Lisboa em hora de ponta pode ser tão penoso como andar num pau de arara.
Começo nos cheiros, saio de casa lavadinho e cheirosinho q.b. tenho que gramar logo de manhã com perfumes merdosos que às vezes rivalizam com os mais pastosos aromas a suor em capacidade de enojar uma pessoa , tudo isto misturado com um calor estúpido... Bem mas não quero entrar por aqui, o que queria mesmo era abrir uma pasta, a pasta "Pau de Arara", na qual me proponho a relatar os mais belos diálogos ouvidos nos autocarros! Mandasse eu no mundo e sociólogos, psicólogos, antropólogos sociais e biológicos, e quaisquer outros cujo dia-a-dia envolva um contacto profissional com humanos seriam obrigados a andar de transportes públicos, pelo menos durante um ano. Um autocarro encerra em si mesmo o mais acessível laboratório para a análise das relações humanas e de uma sociedade, de tal forma, que através dos diálogos relatados tentarei, tanto quanto possível, fazer essa mesma análise.

Carreira 755 (direcção Fonte do Bispo)

Ainda mal apanhei o autocarro e já me dá um aperto no peito por saber que não reterei nem um quinto do diálogo que estou a ouvir... Apanho-o na alameda da Universidade, direcção Fonte do Bispo, e logo no primeiro cruzamento mete-se à nossa frente um fogareiro que obriga o nosso motorista a uma tal travagem que só páro junto dele. Uma mulher no primeiro assento não aguenta o grito estridente a acusar o embate eminente, este actua como desencadeador do diálogo. [o bicho-homem é um bicho com piada, já dizia o desmond morris, e isto de seguir num autocarro em silêncio rodeado por tantos outros bichos começa a acumular uma certa tensão, esta dizia o freud, assim que a mulher do primeiro assento gritou, desenrolou-se uma conversa que chegou a inclui quatro outros bichos e prolongou-se até depois de eu sair do autocarro) «AAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!!!!!» gritou a mulher «Tenha calma minha senhora, os taxistas são todos uns animais, é o que eles são, mas eu já não me enervo. Sabe que depois aqui a bomba da caixa não aguenta, a gente tem é que manter a calma!» o motorista tinha aí uns cinquenta anos, sotaque lisboeta até mais não, que para quem desconhece consiste em sonorizar os s's das palavras assim com trocar por e's por a's de algumas palavras: joelho lê-se joalho, telha lê-se talha, por aí fora. «Ai desculpe eu ter gritado, mas é q'eu já estava mesmo a ver que ia sair disparada pelo vidro da frente e ficava já aqui... Ai, é que eu sou muito nervosa, mexe-se-me com os nervos, as pessoas que não sabem conduzir não deviam andar na estrada!» «Eles são todos uns animais» repete o motorista «Mas a gente não se pode enervar, você se viesse pr'aqui pra onde eu tou, passavam-se-lhe logo os nervos ao fim de uma semana, esses gajos são uns animais, é só biscateiros não têm respeito nenhum por nada, não é como nós» lá do fundo grita uma velha «Ainda hoje vi um acidente com um taxista!» mas a mulher do primeiro assento insiste «Eu sou muito nervosa, tirei a carta vai pra vinte e dois anos, no primeiro dia que me pus à estrada mandei três velhos pró hospital, disse logo: Nunca mais toco num carro!» mete-se outra velha à conversa, que até se levanta um palmo dos bancos de mobilidade reduzida a modos que aflita pela resposta: «E morreram os velhinhos, morreram?!» «Não, graças a deus, dois saíram logo do hospital e o outro saiu ao fim de oito dias, mas o que é que quer, eu vi os velhos junto à estrada quis travar acelerei, bumba, vá três velhos pró hospital»

3 comentários:

Diana M. disse...

LOL os autocarros são de facto um mundo a parte! faz-m lembrar o 768, aquele que inevitavelmente leva todos os coitados e doentes uma vez que passa pelo hospital Santa Maria.. era realmente o medo! no mínimo ficavas sempre a pensar que tinhas apanhado alguma doença insólita de tantas tosses assustadoras (entre outras coisas!) que por lá se ouviam!! =P
gostei gostei, esta com piada :D
Bjinho

Bokwus disse...

Metro ... autocarro ... são sempre pequenas (grandes) aventuras. Sobretudo quando o tempo aquece, e preferes sair 5 ou 6 paragens antes e torrar ao Sol a curtir o ambiente perfumado destes cubiculos :P
Mas uma coisa é verdade: as melhores conversas são sem dúvida aquelas que se ouvem do banco de trás... histórias insólitas as de transportes públicos sem dúvida ;)

Bjs

Su

p.s. : gostei de te ver no outro dia embora tenha sido fugaz o encontro eh eh

Anónimo disse...

Agora que li esta história sinto-me muito mais motivada para conduzir... :)
Beijinhos,
Sofia