António Lisboa, a tua vida tem mais que isto algum dia terás que crescer, eu sei que tens emprego e casa mas és um imaturo. Quando eu te conheci eras um tanso, vestias-te mal e fazias as raparigas olharem para outro lado. E depois, de repente, passaste a seduzir tudo o que mexia, (nem por isso giras) se bem me lembro não houve gaja feia que não tivesses comido, és um merdas e tratas as mulheres como garrafas de whisky (depois de bebidas mandam-se fora), tens de procurar mulheres porque as que não conheces até têm interesse em conhecer-te mas as que te conhecem preferiam não te ter conhecido, arrastas-te até à clínica por imposição minha. No lugar de largares o whisky usas as sessões para te atracares a uma encalhada qualquer. Nem largas um vício, arranjas logo outro, és destrutivo. Como os poetas, mas esses deixam obra, e tu o que é que deixas? Não deixas nada. Tu deves-me mais do que isto António, à minha irmã também. O teu filho cresce à minha frente e tu envelheces sem ninguém dar por nada. O teu real problema António, e agora vou-te mandar abaixo mas aguenta que em seguida já te dou a mão, o teu problema é que ainda não admitiste que sempre foste triste, és um triste que não se apega a nada, és anormal. Até os cães são capazes de amar, jubilam só de cheirar os que amam. Tu foste desprovido do teu dia-a-dia e nem pestanejaste, perdeste uma mulher que te amava e nem envidraçaste os olhos, algum dia vais ter que chorar António. Mas eu compreendo-te, seria incapaz de sentir o que sentes, mas percebo que o possas sentir e vou-te explicar porque o sentes.
Se bebes és capaz de partir um bar a pontapé, no entanto sóbrio és um frouxo. Se verteres uma lágrima o mundo continuará António. E ainda não verteste nenhuma. Tentas fugir à realidade e pareces conseguir, mas na realidade apenas adias a percepção da tua triste existência. Sim António a tua existência, nesta fase, é triste. É preocupante mesmo, fico sem saber o que esperar de ti: às vezes quando te levo tabaco receio ou anseio - não sei bem qual - encontrar-te pendurado no camarão do lustro...
Mas António, vou-te ensinar a chorar, vou-te mostrar o que perdeste, vou-te mostrar que havia coisas que amavas, mesmo que não o soubesses. E quando te aperceberes disso, aí António, chorarás desalmadamente, pedir-me-ás perdão, lamentarás a tua vida, mas vais então começar a construir outra vida, outra existência, e aos poucos, verás António, aos poucos voltarás a ver alegria à tua volta, terás um amanhã mais rico que o hoje e a tua vida poderá continuar a não fazer sentido, mas tu não te preocuparás mais.
Há 16 anos
6 comentários:
Absoluta ou puramente brutal e sublime...
é engraçada esta reacção... já escrevi este post há 20 dias e tardei em publicá-lo porque há sempre uma associação das crónicas ao autor e por o blogue ser todo "verdade", sinto que alguém possa ver nas crónicas fictícias traços auto-biográficos ou desabafos sequiosos de atenção, e nada disso me interessa...
Os escritores sublimam os medos e as angustias dos leitores os teus também não (me) interessam aos leitores. Mas se calhar ainda não és um escritor... deve ser por isso que atacaste este comentário.
A sublimação dos sentimentos é… transformá-los ou transportá-los para fora de nós em expressões de arte... artista já és. O que fazes com o que isso te provoca é problema teu.
Acho que o António é um privilegiado por ter um cunhado e amigo como o narrador, que lhe diz a verdade mas estende-lhe a mão a seguir. Para mim este é, até agora, o melhor texto deste blog, onde conseguiste elevar sentimentos como o desamparo, a tristeza, a dor interna e ao mesmo tempo exaltaste o valor inestimável da amizade.
Se não te sentes como o narrador ou como o António, provavelmente terás amigos como ele, e os que te visitam neste blog podem rever na tua escrita a expressão de sentimentos terríveis que não conseguiam explicar ou partilhar e que depois de lerem, este murro no estômago que o narrador dá ao António, tenham encontrado sentido para um sofrimento e tenham ficado mais serenos, apesar de doridos.
eu não ataquei o comentário!! eu fiquei muito satisfeito com o dito, mas mais ainda, fiquei surpreendido, e quis tentar explicar porque é que fiquei assim.
louvo muito este comentário, e não esperava que alguem desse por este post.
obrigado pelo comentário, fico à espera de mais
desencontrei-me com o antonio no meio das pastas.
aqui está, genial como so ele.
sao personalidades desprendidas assim que me prendem a atençao. por isso gostei deste sim. sobressaiu!
Genial.
Aquele abraço
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