sábado, 7 de fevereiro de 2009

Martim Moniz

Apanho o metro em alvalade, linha verde, sigo na direcção do cais do Sodré. Hoje vou fazer caril! Sabem aquela dificuldade de cozinhar em casa pratos de uma dada região que nunca sabem como se lá estivéssemos? Senti isto pela primeira vez nos estados unidos quando foi pedido aos alunos para cozinharem um prato típico do país de origem. Escolhi o bacalhau à braz, pela aparente facilidade de execução mas achar bacalhau salgado depressa se revelou uma impossibilidade... Contentei-me com bacalhau fresco achado numa loja gourmet. Escusado será dizer que embora o prato tivesse saído bem, não era de todo "bacalhau à braz"!!
A cozinhar em casa haverá maior gozo que adulterar receitas com nomes seculares?! A história da culinária baseia-se nestas pequenas fraudes cometidas. Agora de vez em quando há pratos que não quero de forma alguma alterar: um chili, um caril, sushi, uma moqueca... Mas para isso são necessários, impreterivelmente, os ingredientes essenciais! Dendê para a moqueca, vinagre da arroz para o sushi (entre outros), e cardamomos, caril, erva doce e cravinho para a cozinha indiana, no mínimo! Enquanto alguns ingredientes se encontram em qualquer lado, outros há que ou vamos ao país de origem ou vamos ao sítio onde vivem e comem os imigrantes. Já quando comecei a fazer sushi mandei antes um e-mail à embaixada do Japão a perguntar-lhes onde poderia encontrar chás e ingredientes japoneses, e eles responderam! Claro que para os pratos indianos a resposta salta à vista, ou mais precisamente ao nariz!
No metro em direcção ao Martim Moniz, logo no intendente já cheira a caril!!! Saio no Martim Moniz e parece que atravessei, qual acontecimento Bíblico, os portões da Torre De Babel, na estranha forma daquele centro comercial que também se ergue alto subindo uma das colinas de Lisboa! Quem não conhecesse o mundo diria que a diversidade de línguas da humanidade nasceu ali, na Praça do Martim Moniz. Todas a raças, todos os credos, todos os costumes! É incrível! Não há melhor manifestação da tolerância de um povo: outros países relegam os imigrantes para guetos isolados, em portugal vivem e trabalham numa das mais destacadas praças da Capital!
Ao mesmo tempo, e este foi realmente o assunto que me levou a falar do Martim Moniz, não há praça mais irónica em Portugal, vejam lá:
Martim Moniz, foi um nobre ao serviço do Afonso Henriques - nosso fundador que veio desde Guimarães a aviar fruta em tudo o que mexia (incluindo a própria mãe!) mas chegando a Lisboa dá de caras com a porta do castelo... Ora dizem que o Martim era um xenófobo de primeira, incapaz de sair do pé do portão tal era o seu asco pelos mouros! Um destes mouros terá um dia aberto a porta mais que uma nesga, e foi o suficiente para que o Martim no seu sentido mais nacionalista conseguisse ficar entalado no portão! Isto permitiu que o nosso D. Afonso, que já desde o início do cerco ressacava uma boa pancadaria, entrasse pelo castelo a ceifar mouros a torto e a direito, baptizando o castelo de S. Jorge! Agora o que eu acho realmente engraçado é que este pobre xenófobo deu a vida para que os portugueses ganhassem uma Capital, capital esta que baptiza uma grande praça com o nome dele, e na maior e mais irónica reviravolta, os mouros, asiáticos e africanos formam aquela que é a mais plural praça portuguesa: A Praça do Martim Moniz!

3 comentários:

Iris Rodrigues Dias disse...

Sim senhor! Muito lindo...gosto de verdade!
Vê lá se me convidaste para comer o caril!

Anónimo disse...

BACALHAU À BRAZ! ^_^

(mas tem de ser com batatas fritas caseiras)

Anónimo disse...

Este texto é simplesmente interessante, para além de que me fez dar umas boas gargalhadas :D *