Enterra as botas de napa, baratas, na areia poeirenta aquela areia que não é lavada pelo mar. Olha para o filho enternecida, vê-o brincar com formas, um balde do spider-man, e um bocado de lixo que o mar trouxe à costa. A mãe continua a vê-lo sem o repreender de brincar com o lixo (hoje evitará conflitos: o cansaço da semana dita a não repreensão), ajeitou uma pedra menos dura para se sentar a coberto da areia poeirenta e levanta a cara ao sol, o miúdo faz um montinho de areia coberto de conchas, caricas, tampinhas e papéis.
O aroma a maresia é quase insuportável. A merda que vem do esgoto agora não se sente: está maré cheia, mas há o cheiro que emana das algas e intensifica a maresia, é nauseante. E as algas são tantas e o cheiro tão intenso, brilham ao sol molhadas pelo mar que ondula. Nas ondas vêem-se sacos de plástico, latas que bóiam e uma tampa sem balde.
Lolitas andam soltas a pavonear-se pelo paredão, levam blusinhas frescas umas de pernas à mostra outras de jeans afilados nos artelhos a acabar numas botas gigantes - que raio de moda - e emproam os princípios de mamas, olham furtivamente para os rapazes de t-shirts despidas, estes exibem os corpos depilados forjados no ginásio, usam tatuagens e levam cães agressivos à trela. Andam de braços arqueados como quem apanhou um escaldão.
Lagartos, noddy's, peter pan's, spider man's, princesas, brancas de neve.
Andam outros mascarados na praia, mais precisamente no mar, usam fatos de neoprene e estão montados numa prancha, são mais de cem mas mesmo assim há ondas que chegam até à costa sem serem surfadas.
O povo sedento de sol acorre às praias em Fevereiro, parece Agosto. Se em Agosto estivesse este tempo ninguém iria à praia, mas é Fevereiro. Num raro momento abre-se uma clareira entre a multidão e aterram uns maçaricos a debicar apressadamente por entre as areias. Na areia não se consegue sacudir a toalha sem chatear alguém, uma mulher gorda, a transbordar do fato-de-banho, tira uns pastéis de bacalhau de uma tupperware... No mar passam os iates ao sabor do vento, longe alheios à confusão da costa, suspeito de long drinks e canapès.
Queques acotovelam-se nas esplanadas, cheira a dior, calvin klein, e dolce & gabbana, bebem sucos de abacaxi com hortalã e lamentam não ter ido ao Rio este ano, mas garantem ir já no próximo.
O fim do dia chega, o povo recolhe a casa, amanhã é dia de trabalho, quem está habituado às rotinas parece não se incomodar com mais umas horas valentes de trânsito para sair da praia.
Há 16 anos
3 comentários:
gostei mt deste post.
ja me pedis t opiniao, mas e dificil ler todos, mas gostei mt deste carnaval à zé-povinho.
brincar ao carnaval é um acto de coragem, sair a rua sem sentir o peso de se estar ridiculo, de vestir todas as cores de uma vez e de se falar mais alto do que o costume so para fazer acreditar que realmente se está a vontade com a figura. É interessante de se ver os fenomenos humanos que o carnaval proporciona.
Podemos dizer que nos passa ao lado, mas se fosse totalmente verdade nao estariamos a escrever sobre ele. A vida sao dois dias, o carnaval sao tres.
Esperámos, pelo menos eu esperei, mais de 20 dias mas valeu a pena!
Muito bom! Cada parágrafo é uma rampa para desenvolver sensorializações... ;)
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