segunda-feira, 14 de julho de 2008

Fugas

No último post falei em pensamento abstracto como uma característica do Homem que o diferencia dos demais bichos, uma capacidade que nos permite percepcionar uma realidade duma, ou melhor, de várias dimensões. Sendo nós um animal emotivo, juntando a habilidade de percepcionar a realidade passamos então a sentir a realidade e a gerir as nossas sensações de acordo com esta.
Poria as minhas mãos no fogo caso não se revelasse verdadeira a relação entre o uso de drogas e a noção da nossa existência. A partir do momento em que o homem se viu preso a uma realidade que já entendia como sua e que à qual não podia fugir corporeamente, passou nesse mesmo instante a procurar fugas a essa mesma realidade. Não podendo indicar uma era, assumo que desde que o Homem é Homem que recorre a fugas à realidade, (sem me considerar um autor) muitos autores actuais e ancestrais referiram a importâmcia de tais fugas para a manutenção da salubridade da mente humana, é que ter a noção da realidade não é de todo saudável. Como nos mostrou Fernando Pessoa através de Alberto Caeiro ou Jorge Palma com "aquele ali vai prós copos / tratar das suas fugas".
E daqui salto para as fugas propriamente ditas, despois de ter estabelecido que estas são condição sine qua non para a saúde mental do Homem, digo-vos sem nenhuma dúvida, que todas as pessoas mentalmente saudáveis recorrem a fugas, fugas estas que podem ser tão saudáveis como dançar, ler, foder, dormir, correr, jogar... etc, ou tão danosas como jogar, beber, snifar, injectar e por aí fora.
Usar as fugas como cartas de "ESTÁ LIVRE DA PRISÃO" da realidade é óptimo e mesmo as danosas usadas esporadicamente, creio serem mais benéficas que maléficas, o problema é que sendo fugas à realidade, são-no porque remetem-nos para uma realidade ficcional muito prazeirosa e que nos é díficil abandonar e portanto podem levar-nos a uma perigosa obsessão.
Quanto a mim, a minha droga é o alcool. Nada, para mim cumpre melhor a sua função de abstracção da realidade do que o alcool, e se gosto do alcool pela fuga à realidade durante a intoxicação, gosto talvez ainda mais da ressaca que se me apresenta como uma percepção real mas mais cristalina da realidade, (dores de barriga e de cabeça não são raras).
João Magueijo, físico, confessou ter formulado a sua teoria contrária à da relatividade de Einstein numa tarde de ressaca. Sem me querer comparar com o mundialmente conhecido e respeitado físico, posso revelar-vos uma questão que há tanto me incomodava literalmente iluminada num dia de ressaca: quando olham para o céu de óculos escuros encontrarão dois pontos de reflexo, esses, são o reflexo do sol nos vossos olhos projectado nas lentes!

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